O governo chinês ordenou, nesta segunda-feira (27), que a Meta desfaça a aquisição da startup de inteligência artificial Manus, um negócio avaliado em mais de US$ 2 bilhões. A decisão, proferida pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, marca um endurecimento sem precedentes no escrutínio sobre investimentos norte-americanos em empresas de tecnologia de ponta do país. De acordo com as autoridades, a medida visa proteger a propriedade intelectual e evitar a fuga de talentos estratégicos no setor de IA, em um momento de acirrada disputa tecnológica entre Pequim e Washington.
A intervenção ocorre após a Meta ter concluído a compra da startup em dezembro, o que gerou uma investigação imediata por parte do Ministério do Comércio da China em janeiro. O movimento regulatório é considerado raro por exigir a reversão de uma transação já finalizada e sinaliza um alerta claro ao mercado internacional. Fontes próximas ao caso revelaram que os cofundadores da Manus, Xiao Hong e Ji Yichao, foram convocados por reguladores em Pequim no mês de março e, desde então, estão proibidos de deixar o país, evidenciando a gravidade do impasse diplomático e jurídico.
A controvérsia em torno da Manus intensificou-se após a startup, que recebeu aportes liderados pela norte-americana Benchmark, fechar seus escritórios na China em julho de 2025 e demitir dezenas de colaboradores locais. Sem autorização formal dos reguladores chineses, a empresa transferiu suas operações para Cingapura e se reincorporou sob uma nova controladora. A manobra foi vista por Pequim como uma tentativa de contornar as restrições de transferência de capital e tecnologia para o exterior, além de driblar as sanções impostas pelos Estados Unidos contra empresas chinesas de IA.
Apesar da ordem de reversão e das restrições de viagem impostas aos seus líderes, a equipe da Manus já estaria operando a partir dos escritórios da Meta em Cingapura. Relatos indicam que os projetos de desenvolvimento de inteligência artificial continuam avançando, mesmo com o vácuo jurídico criado pela decisão da comissão chinesa. O comunicado oficial do órgão regulador não citou nominalmente a Meta, mas foi enfático ao declarar que proibirá o investimento estrangeiro na startup e exigirá que todas as partes envolvidas restaurem o cenário anterior à venda.
O bloqueio da transação ocorre em um momento político sensível, precedendo uma cúpula planejada para meados de maio entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e o líder chinês Xi Jinping, em Pequim. Especialistas acreditam que o caso Manus será um dos temas centrais da pauta bilateral, servindo como uma peça de retaliação chinesa às tentativas de Washington de restringir o acesso da China a semicondutores avançados. A disputa evidencia como as startups de tecnologia se tornaram o novo campo de batalha na guerra fria digital entre as duas maiores economias do mundo.
O desfecho do caso Manus estabelece um novo e rigoroso precedente para transações transfronteiriças no setor de tecnologia. A insistência da China em reaver o controle sobre a startup, mesmo após a mudança física de sua sede e integração à Meta, demonstra que as fronteiras regulatórias de Pequim agora acompanham seus ativos intelectuais onde quer que estejam. A partir de agora, investidores globais enfrentam um cenário de incerteza crescente, onde a conformidade com as leis de segurança nacional chinesas tornou-se um requisito inegociável para qualquer movimentação estratégica no setor de IA.
