O mercado brasileiro de venture capital começou a recuperar parte do fôlego perdido nos últimos anos, e a retomada abre espaço para modelos que tentam aproximar investidores de startups sem concentrar toda a aposta em uma única empresa. É nesse movimento que a Cyklo, aceleradora com sede em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, e escritório em Joinville, em Santa Catarina, busca ampliar a captação de seu segundo veículo voltado a negócios inovadores.
Lançado no fim de 2022, o Fundo II permanece aberto a novos investimentos até o final de 2026. Cerca de 40 startups já passaram pelo processo de aceleração ao longo do período, segundo a companhia. A expectativa é que pelo menos dez alcancem valor de mercado relevante e mantenham uma trajetória de crescimento sustentável.
A projeção apresentada pela Cyklo é de alcançar um retorno de até R$ 3 para cada R$ 1 investido. O número, porém, representa uma estimativa da própria aceleradora, e não uma rentabilidade garantida. Investimentos em startups estão sujeitos a riscos elevados, incluindo perda parcial ou total do capital, baixa liquidez e fracasso dos negócios que compõem o portfólio.
O momento coincide com uma recuperação do fluxo de recursos para empresas de tecnologia e inovação no país. Dados da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), em parceria com a TTR Data, apontam que os investimentos de venture capital chegaram a R$ 2,1 bilhões no terceiro trimestre de 2025, crescimento de 23% em relação ao mesmo intervalo do ano anterior.
Para a Cyklo, a dificuldade de empresas em estágio inicial acessarem capital também ajuda a ampliar a demanda por estruturas privadas de financiamento. Pompeo Scola, CEO da aceleradora, afirma que o investidor participa do veículo que reúne as startups selecionadas, sem adquirir participação na própria Cyklo.
“A proposta é distribuir os recursos entre um conjunto de empresas, em vez de concentrar o investimento em um único negócio”, explica o executivo.
Primeiro fundo acelerou 20 startups
A estratégia do Fundo II parte da experiência do primeiro veículo da Cyklo, que operou entre 2020 e 2022 e acelerou 20 startups. De acordo com a empresa, cinco delas apresentam maior potencial de valorização e podem levar o portfólio a um retorno estimado de até três vezes o capital aplicado quando ocorrerem vendas de participações ou outros eventos de liquidez.
Ainda não se trata, portanto, de um ganho integralmente realizado. A estimativa depende da valorização das empresas e da capacidade de transformar as participações detidas em recursos financeiros.
“Após quase cinco anos, já conseguimos enxergar com mais clareza o potencial do primeiro fundo”, afirma Scola.
No segundo veículo, a Cyklo decidiu ampliar o número de negócios acompanhados. A lógica é que os resultados das startups com melhor desempenho possam compensar empresas que cresçam menos, encerrem atividades ou não encontrem compradores para suas participações. Essa dispersão reduz a dependência de uma única tese, embora não elimine os riscos próprios do venture capital.
O modelo também combina capital com um programa de aceleração. As empresas selecionadas recebem mentorias, orientação estratégica e acompanhamento contínuo, segundo a Cyklo. O objetivo é atuar diretamente na evolução dos negócios que integram o portfólio e elevar as chances de crescimento antes de um eventual evento de liquidez.
Investidor participa por meio de uma SCP
A estrutura apresentada pela Cyklo utiliza uma Sociedade em Conta de Participação (SCP). Após a adesão, pessoas físicas ou jurídicas passam a ter uma participação proporcional ao montante aplicado sobre o equity adquirido nas startups que integram o veículo.
Na prática, quando uma empresa do portfólio é vendida ou ocorre outro evento capaz de gerar liquidez, os valores obtidos são distribuídos proporcionalmente entre os participantes, conforme as regras da estrutura.
A Cyklo também criou uma modalidade de pagamento parcelado. Segundo a aceleradora, o aporte pode incluir uma entrada e prestações mensais entre R$ 7 mil e R$ 9 mil, com o objetivo de reduzir o impacto imediato sobre o caixa dos investidores.
Outro argumento apresentado pela companhia envolve o momento de incidência tributária sobre os ganhos. Scola afirma que, em linhas gerais, a valorização acumulada não gera tributação enquanto o ganho não é efetivamente realizado por venda ou resgate. A aplicação concreta das regras, no entanto, depende da estrutura jurídica da operação e da situação de cada investidor.









