Quando a Timidez se Transforma em Força: A Jornada de um Líder Global

Matheus Tait

Da timidez à atuação global, a trajetória de Matheus Tait mostra como autenticidade, empatia e pessoas constroem líderes de verdade.

Matheus Tait é tecnólogo, executivo e pai da Alice. Atualmente, atua na Espanha como CEO (Country Managing Director) de uma consultoria especializada em alta tecnologia, onde lidera centenas de profissionais de diferentes nacionalidades e impulsiona a transformação digital de grandes empresas globais.

Antes de se estabelecer na Espanha, construiu uma trajetória internacional marcada por experiências profissionais em diversos países. Entre projetos de curta e longa duração, trabalhou no Brasil, Estados Unidos, México, Equador, Índia, Cingapura, Alemanha, Polônia, Finlândia e Romênia. Em três desses mercados — Brasil, Equador e Espanha — assumiu posições de liderança de negócios com resultados expressivos, vivenciando culturas distintas e ampliando sua visão de mundo.

Décadas atrás, Matheus jamais imaginaria viver uma experiência internacional. Nascido em 1978, em Brodowski, uma pequena cidade do interior de São Paulo, cresceu em uma família sem grandes posses materiais, mas rica em valores. Sua mãe, Aureluce, foi uma figura central em sua formação: uma verdadeira guerreira que criou quatro filhos enquanto trabalhava na rede pública de ensino. Apesar das dificuldades, garantiu o que considerava essencial — apoio, incentivo e estímulo permanente aos estudos.

Toda a formação acadêmica inicial de Matheus aconteceu na rede pública, do ensino básico à universidade. Somente após a graduação e já com estabilidade profissional passou a investir em instituições privadas. Foi na vida adulta, depois de anos de trabalho, que construiu um currículo acadêmico que inclui formações em instituições como Harvard Business School, MIT e The Wharton School, fruto de esforço, disciplina e investimento pessoal.

A vida profissional começou cedo. Ainda jovem, trabalhou em diferentes funções para ajudar a família, desde atendente de sorveteria até em videolocadoras — ambiente que despertou sua paixão pelo cinema e contribuiu para o aprendizado do inglês por meio dos filmes. O primeiro contato mais profundo com a tecnologia aconteceu ao auxiliar o pai em trabalhos de diagramação, quando teve acesso a um computador, ainda antes da popularização da internet. A partir dali, nasceu a conexão com o universo tecnológico.

Essa experiência o levou a optar pela Engenharia da Computação na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A escolha, no entanto, não foi simples. Curioso por natureza, Matheus chegou a considerar áreas como Cinema ou Filosofia, mas decidiu pela computação pelas oportunidades que enxergava no futuro.

Ingressar na universidade representou um divisor de águas. Vindo de uma cidade pequena e de escolas públicas, passou a ter contato com realidades até então inimagináveis. Aproveitou intensamente o ambiente acadêmico, cursando disciplinas em áreas diversas como Filosofia, Artes, Sociologia, Economia e Educação Física. A combinação entre formação técnica, visão ampliada e o peso do diploma foi determinante para sua evolução profissional.

A leitura sempre esteve presente em sua rotina, com destaque para a ficção científica, embora mantenha interesse por temas variados. Mais recentemente, passou a se dedicar à neurociência, área que considera profundamente conectada ao alto desempenho profissional.

Um Líder Tímido: É Possível?

Matheus sempre foi tímido e introvertido — característica que carrega até hoje. Durante muito tempo, acreditou que esse perfil não combinava com liderança. Não almejava ocupar cargos de comando; essa possibilidade sequer fazia parte de seus planos.

O primeiro convite para liderar foi recebido com surpresa e insegurança. Com o tempo, no entanto, percebeu que sua visão sobre liderança estava equivocada. Ao fortalecer suas qualidades naturais, descobriu que era possível ser um líder eficaz respeitando seu próprio estilo. Liderar, para ele, passou a significar usar as próprias fortalezas, trabalhar de forma colaborativa e confiar genuinamente nas equipes.

Ao compartilhar suas reflexões com colegas, percebeu que não estava sozinho. Estudos indicam que cerca de 47% da população é introvertida, tema que passou a permear seus artigos e reflexões.

Encontrando o Próprio Caminho

Para Matheus, não existe uma fórmula única para alcançar objetivos pessoais e profissionais. Pessoas são diferentes, assim como seus estilos de atuação. Em sua trajetória, algo se mostrou constante: a escolha consciente por agir com autenticidade, integridade e empatia.

Ao longo dos anos, priorizou ouvir, pensar no coletivo e agir com coerência entre discurso e prática. Enquanto evoluía tecnicamente e seguia estudando, o reconhecimento veio de forma gradual. Curiosamente, foi justamente ao não buscar a liderança como objetivo final — mas sim ao focar em ajudar suas equipes de maneira genuína — que acabou sendo convidado a liderar.

Seu primeiro papel formal de liderança surgiu no início dos anos 2000, quando foi escolhido pela própria equipe, por votação, após a saída da líder anterior. Para ele, foi o reflexo de princípios sólidos cultivados ao longo do tempo, como escuta ativa, integridade e genuinidade.

A abertura para o novo também foi fundamental. A vivência em diferentes culturas o tornou mais flexível, empático e respeitoso com as diferenças, ampliando sua capacidade de compreender pessoas e contextos diversos. Soma-se a isso uma curiosidade constante: questionar o propósito dos projetos, entender para quem são feitos e quais alternativas existem sempre contribuiu para uma visão mais sistêmica.

Ao longo da carreira, contou com o apoio de mentores e hoje faz questão de retribuir, atuando como mentor e compartilhando aprendizados. Para ele, ensinar é também uma forma poderosa de aprender.

A Virada: Pessoas no Centro

No início da carreira, os desafios eram predominantemente técnicos. Com a evolução profissional, percebeu que a essência do trabalho passou a ser lidar com pessoas. Liderar, entendeu, é comunicar com clareza, motivar, engajar, apoiar, reconhecer erros e aprender com eles.

Embora o início tenha sido desafiador, a maior barreira foi interna: superar a síndrome do impostor e aceitar que poderia ser eficaz em um papel diferente daquele que havia imaginado para si.

Autoconhecimento como Pilar

Matheus acredita que muitas limitações são autoimpostas. A síndrome do impostor, em especial, foi um obstáculo superado quando compreendeu que liderança é, acima de tudo, sobre pessoas. O autoconhecimento passou a ser um pilar central de sua vida profissional e pessoal.

Se antes esse processo era intuitivo, hoje é intencional. Pratica meditação, busca retomar as artes marciais, faz terapia e participa de mentorias. Ao mesmo tempo, atua como mentor, acreditando que compartilhar experiências fortalece tanto quem ensina quanto quem aprende.

Valores Integrados à Carreira

Para Matheus, valores devem sempre prevalecer em benefício do coletivo e da sociedade. Trabalhar com tecnologia é motivo de orgulho, mas também de responsabilidade, já que as inovações moldam comportamentos e estruturas sociais.

Essa visão se reflete tanto no desenvolvimento de produtos — priorizando acessibilidade e inclusão — quanto na gestão de pessoas. Um exemplo concreto é o orgulho em ter alcançado 49% de representatividade feminina em cargos técnicos na operação que lidera na Espanha.

Conselhos para o Futuro

Inspirado por um artigo do Fórum Econômico Mundial que afirma que “as mudanças nunca mais serão tão lentas quanto são hoje”, Matheus destaca que o ritmo de transformação tende a se acelerar ainda mais. Muitas das profissões do futuro sequer existem atualmente.

Para quem está iniciando a carreira, ele recomenda curiosidade, criatividade e aprendizado contínuo. A capacidade de se reinventar, desaprender e reaprender será essencial. Autenticidade, equilíbrio e leveza também são fundamentais: ser quem se é, planejar o futuro sem deixar de viver o presente e entender que erros fazem parte do caminho.

Escolher uma carreira deve considerar afinidade, identidade e perspectivas futuras, mas sem medo de mudar de rota. Se algo não der certo, tudo bem — aprende-se e tenta-se novamente.

Por fim, reforça a importância das conexões humanas, construídas de forma genuína, e do cuidado com a saúde mental e o bem-estar. Hobbies, família e amigos são fontes essenciais de energia e equilíbrio.

Matheus espera que sua trajetória inspire outras pessoas a acreditarem em si mesmas e a não permitirem que características como timidez ou introversão se tornem obstáculos. Com autenticidade, equilíbrio e leveza, acredita ser possível alcançar grandes realizações e contribuir positivamente para a sociedade.

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