Enquanto parte do setor aéreo americano enfrenta pressão de custos, alta do combustível e discussões sobre fusões, a Delta Air Lines segue em uma posição rara: é a companhia aérea mais lucrativa dos Estados Unidos e mantém distância das turbulências que atingem concorrentes.
Nos últimos cinco anos, a empresa acumulou quase US$ 14,7 bilhões em lucro, cerca de R$ 74 bilhões, segundo reportagem da Folha de S.Paulo a partir do The New York Times. O resultado é quase o dobro da segunda colocada no setor e ajuda a explicar por que a Delta virou referência para outras empresas aéreas.
O desempenho chama atenção em um momento difícil para o mercado. A Spirit Airlines encerrou operações neste mês, o combustível de aviação ficou cerca de 50% mais caro por causa da guerra no Irã, e executivos do setor voltaram a discutir possíveis consolidações entre companhias.
O foco em clientes premium virou vantagem competitiva
Parte da força da Delta vem de uma escolha feita há quase duas décadas. Depois de pedir proteção contra falência em 2005, a companhia concluiu que não conseguiria sobreviver disputando apenas passageiros que escolhem voos pelo menor preço.
Com isso, passou a mirar consumidores dispostos a pagar mais por pontualidade, conforto e uma experiência melhor. A estratégia incluiu assentos mais espaçosos, salas VIP, investimento em tecnologia, melhoria operacional e um programa de fidelidade mais valioso.
Esse posicionamento transformou a Delta em uma companhia menos dependente de guerra tarifária. O cliente mais fiel tende a comparar menos preço e valorizar mais conveniência, status e previsibilidade.
SkyMiles virou ativo bilionário
O programa de fidelidade SkyMiles é um dos principais pilares desse modelo. A parceria da Delta com a American Express, ligada a cartões de crédito, rendeu mais de US$ 8 bilhões à companhia no ano passado.
Segundo a consultoria On Point Loyalty, o SkyMiles vale cerca de US$ 32 bilhões, quase dois terços do valor de mercado da Delta, estimado em aproximadamente US$ 50 bilhões.
Esse dado mostra como a aérea deixou de ser apenas uma operadora de voos. Na prática, parte relevante do valor da empresa está na relação com clientes recorrentes, cartões, milhas, benefícios e dados de consumo.
Berkshire comprou fatia na Delta
A estratégia ganhou um selo de confiança do mercado neste mês, quando a Berkshire Hathaway revelou ter comprado uma participação superior a 6% na Delta.
Para investidores, o interesse não está apenas na venda de passagens. O atrativo está na capacidade da companhia de gerar receita com fidelidade, clientes de maior renda e serviços agregados.
Esse modelo também ajuda a empresa a atravessar momentos de maior instabilidade no setor. Quando combustível sobe, demanda oscila ou concorrentes sofrem, uma base de clientes mais leal pode reduzir parte da volatilidade.
