Estima-se que cerca de três em cada dez adultos convivam com dor crônica em todo o mundo. Apesar de sua alta prevalência, ela ainda é frequentemente compreendida apenas como um problema físico. No entanto, indivíduos que vivenciam dor persistente reconhecem que seus impactos extrapolam o corpo, afetando de forma significativa a saúde mental e o funcionamento psicológico. Sintomas como ansiedade, depressão, pensamentos repetitivos e padrões atencionais específicos exercem influência direta em como a dor é percebida e vivenciada no cotidiano.
Evidências científicas indicam que pessoas com dor crônica apresentam níveis mais elevados de ansiedade e depressão quando comparadas à população geral. Esse achado não implica que a dor seja de natureza exclusivamente psicológica, mas reforça a compreensão de que mente e corpo operam de forma integrada. Emoções intensas e padrões cognitivos disfuncionais, como o pensamento catastrófico, podem amplificar o sofrimento, intensificar a percepção da dor e comprometer estratégias eficazes de enfrentamento.
Além disso, estudos apontam que níveis reduzidos de atenção e consciência ao momento presente estão associados a maior sofrimento relacionado à dor, tanto em indivíduos com diagnóstico de dor crônica quanto naqueles sem essa condição clínica. De modo geral, menor atenção plena correlaciona-se com maior preocupação, comportamentos de evitação e o uso de estratégias de enfrentamento menos adaptativas.
Esses achados reforçam a importância da integração de intervenções psicológicas no manejo da dor crônica. Abordagens que promovem o fortalecimento da atenção e da consciência não têm como objetivo eliminar a dor, mas favorecer uma relação menos reativa, mais funcional e adaptativa com a experiência dolorosa. Assim, o tratamento eficaz da dor crônica exige uma abordagem ampliada, que contemple não apenas os aspectos físicos, mas também os processos psicológicos envolvidos. Ignorar essa interconexão é, em última instância, contribuir para a perpetuação do sofrimento.
Biografia

Samantha Castro Teixeira é mestre em Psicologia pela PUC-Rio e atualmente está em um PhD em Health Psychology na Virginia Commonwealth University (VCU), nos Estados Unidos. Seu trabalho foca na compreensão de como fatores psicológicos – como ansiedade, atenção e estratégias de enfrentamento – influenciam a experiência de dor crônica e a saúde mental de adultos.
Fontes:
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Castro, S., Carvalho, L. M., & Rodrigues, J. C. (2024). Qualidade de vida e estratégias de enfrentamento em pacientes com fibromialgia. Dementia & Neuropsychologia Journal, [ISSN online 2764-4863]. http://demneuropsy.com.br/wp-content/uploads/2023/12/DN_SUP2023_baixa.pdf
Castro, S., Carvalho, L., & Rodrigues, J. (2023). Percepção da qualidade de vida, sintomas de humor, estratégias de enfrentamento e tratamento em adultos com fibromialgia. Psychology Notebooks Journal. https://doi.org/10.9788/CP2024.3-11








