O mercado de vestuário nos Estados Unidos enfrentou uma forte turbulência na última sexta-feira, com as ações da Gap e da American Eagle Outfitters despencando mais de 12% na Bolsa de Nova York. O movimento de liquidação foi desencadeado após ambas as varejistas divulgarem previsões financeiras pessimistas, um sinal claro de que a pressão inflacionária e a incerteza macroeconômica estão corroendo o poder de compra e os gastos discricionários dos consumidores norte-americanos.
No caso da Gap, dona de marcas consagradas como a Old Navy, o gatilho para o pessimismo foi o corte em sua previsão de vendas anuais, anunciado em meio a um complexo processo de reestruturação interna. A frustração com os números levou os papéis da companhia a registrarem o pior desempenho diário em um ano. O ponto central da fraqueza concentrou-se justamente na Old Navy, onde analistas apontaram que as coleções sazonais de roupas femininas, incluindo vestidos, falharam em atrair as consumidoras no início da temporada.
A American Eagle Outfitters adotou uma postura ligeiramente diferente ao manter suas projeções anuais inalteradas, mas o mercado reagiu mal aos alertas emitidos pela administração sobre a compressão das margens brutas no curto prazo. A varejista também enfrentou forte resistência em sua marca principal, onde as linhas de calças femininas sofreram com a rápida mudança de tendências de moda e com uma primavera mais fria do que o esperado. O desempenho negativo da marca principal acabou ofuscando o crescimento contínuo da Aerie, a divisão de roupas íntimas e loungewear do grupo.
Para tentar reverter o cenário e capturar a atenção do público da Geração Z, a American Eagle apostou recentemente no lançamento de uma nova campanha publicitária estrelada pela atriz Sydney Sweeney. A estratégia busca repetir o sucesso de um anúncio viral e controverso com a atriz no ano passado, que na época impulsionou fortemente o valor das ações. Contudo, analistas do Barclays alertaram que replicar aquele fenômeno será um desafio hercúleo, mesmo com o aumento projetado nos gastos de marketing para o trimestre atual.
Os resultados dessas gigantes do varejo evidenciam uma profunda divisão nos hábitos de consumo nos Estados Unidos, onde o sentimento do consumidor flutua em níveis historicamente baixos, influenciado pelas recentes tensões globais e a guerra envolvendo o Irã. Esse panorama geopolítico e econômico tem forçado as famílias de baixa renda a cortarem drasticamente as despesas com itens não essenciais. Em contrapartida, os consumidores de maior poder aquisitivo continuam dispostos a gastar, embora de forma muito mais seletiva e criteriosa.
Essa disparidade fica evidente quando o desempenho da Gap e da American Eagle é comparado ao de concorrentes como a Abercrombie & Fitch e a Bath & Body Works. No início da semana, ambas apresentaram balanços trimestrais robustos, sinalizando que ainda existe apetite no mercado americano por produtos que entreguem uma proposta de valor clara e considerada “acessível” dentro do segmento premium. O contraste reforça que o sucesso no ambiente atual depende diretamente da assertividade das coleções e do posicionamento de marca.
A onda de desconfiança com o setor de vestuário cruzou o Atlântico e também ecoou nos mercados europeus. Em Estocolmo, as ações da gigante H&M operaram em queda de cerca de 1%, refletindo o temor global de que a desaceleração do consumo de moda seja generalizada. Apesar do cenário desafiador para a Gap, alguns analistas enxergam um horizonte positivo no longo prazo, apostando que a recente entrada da companhia na categoria de produtos de beleza — que historicamente trabalha com margens de lucro mais elevadas — possa funcionar como um importante amortecedor financeiro.
Do ponto de vista de valuation, os dados da LSEG indicam que as ações da Gap estão sendo negociadas a 10,30 vezes o lucro estimado para os próximos 12 meses, enquanto a American Eagle exibe um múltiplo de 9,70 vezes e a Abercrombie & Fitch lidera em desconto relativo, negociada a 7,43 vezes. O ajuste de preços na sexta-feira foi especialmente doloroso para a American Eagle, cujas perdas no pregão chegaram a atingir 19%, aprofundando a desvalorização acumulada de 32% no ano de 2026. A Gap, por sua vez, apresentava uma retração mais contida de 2% no acumulado do ano até o fechamento da véspera.
