Mercado de baterias pode atrair R$ 57 bilhões e virar nova fronteira da infraestrutura

O mercado brasileiro de armazenamento de energia por baterias começa a sair do estágio inicial e pode atrair mais de R$ 57 bilhões em investimentos nos próximos dez anos, segundo projeção da Deloitte. A expansão das fontes solar e eólica, somada a novas regras para o setor, abre uma frente de negócios voltada a armazenar energia excedente e devolvê-la à rede nos momentos de maior demanda.

Dois movimentos são centrais para essa nova fase. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou uma regulamentação para sistemas de armazenamento, enquanto o país prepara para dezembro o primeiro leilão exclusivo do segmento.

A expectativa é que as novas regras reduzam incertezas para investidores e ajudem a criar modelos de remuneração para projetos de baterias em larga escala.

Expansão das renováveis aumenta pressão sobre a rede

O avanço da energia solar e eólica mudou rapidamente a matriz elétrica brasileira, mas também aumentou a necessidade de flexibilidade do sistema.

Como essas fontes dependem de condições climáticas, a geração varia ao longo do dia. Em determinados momentos, usinas produzem mais energia do que a rede consegue absorver. Parte desse volume pode ser reduzida ou descartada, fenômeno conhecido como curtailment.

“As baterias funcionam como um verdadeiro colchão energético. Elas armazenam a energia excedente nos momentos de maior geração e a devolvem à rede quando a demanda aumenta ou a produção renovável diminui”, afirma Renato de Castro, sócio do Almeida Prado Hoffmann Advogados e especialista em energia e infraestrutura.

Segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) citados no material, a capacidade instalada de geração solar e eólica centralizada deverá superar 76 GW até 2034. A micro e minigeração distribuída, predominantemente solar, poderá chegar a cerca de 59 GW no mesmo período.

O Plano Decenal de Expansão de Energia também aponta necessidade de 55 GW adicionais de potência até 2034, dos quais aproximadamente 9 GW poderão ser atendidos por sistemas de armazenamento.

Nova regulação busca destravar projetos

Na avaliação de Castro, a regulamentação da Aneel representa uma mudança importante para o setor ao definir parâmetros para autorização, conexão, operação e remuneração dos sistemas.

“A definição das regras para autorização, conexão, operação e remuneração dos sistemas de armazenamento traz previsibilidade regulatória e segurança jurídica para os investidores”, afirma.

Entre os pontos destacados está a cobrança da tarifa de uso da rede apenas no momento da descarga de energia para sistemas integralmente despachados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

A medida busca evitar dupla tarifação e melhorar a viabilidade econômica dos projetos.

“Essa medida aumenta a viabilidade econômica dos projetos e cria os sinais necessários para a estruturação de novos modelos de negócio”, diz Castro.

Primeiro leilão pode criar referência de preços

Outro marco esperado pelo setor é o primeiro Leilão de Reserva de Capacidade dedicado exclusivamente a sistemas de armazenamento.

As diretrizes foram estabelecidas pela Portaria Normativa MME nº 136/2026, segundo o material enviado. A realização está prevista para dezembro.

“O leilão representa a primeira contratação estruturada de potência proveniente de baterias no país e deve estabelecer referências econômicas importantes para o desenvolvimento do setor”, afirma o especialista.

Na prática, a contratação pode ajudar investidores a avaliar retorno, risco e estrutura de financiamento de projetos que ainda têm poucas referências no mercado brasileiro.

Baterias podem reduzir acionamento de térmicas

Os sistemas de armazenamento também podem reduzir a necessidade de acionar usinas termelétricas nos horários de maior consumo.

Uma bateria pode armazenar eletricidade renovável produzida em períodos de maior oferta e liberá-la quando o sistema precisa de potência adicional. Isso amplia as opções disponíveis ao operador da rede e pode reduzir o uso de fontes mais caras e emissoras.

“As baterias permitem armazenar energia renovável produzida durante o dia e disponibilizá-la nos momentos de maior demanda, reduzindo a necessidade de despacho de usinas termelétricas”, afirma Castro.

Além do efeito sobre emissões, os equipamentos podem contribuir para aliviar congestionamentos na transmissão, responder a oscilações de demanda e aumentar a confiabilidade do Sistema Interligado Nacional.

Brasil corre para alcançar mercados mais maduros

Apesar do potencial, o país entra em uma corrida já avançada em mercados como Chile, Estados Unidos e Austrália.

A queda nos preços das baterias de íons de lítio melhorou a competitividade dos projetos, mas o Brasil ainda depende fortemente de equipamentos importados, um desafio para custo, câmbio e desenvolvimento industrial.

“O Brasil precisa aproveitar essa oportunidade para desenvolver uma política industrial capaz de estimular a produção local de baterias, inversores e sistemas de controle, gerando empregos qualificados e agregando valor à transição energética”, diz Castro.

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