A Natura (NATU3) ainda precisa provar que consegue transformar sua reestruturação em recuperação de receita. Essa é a avaliação do JPMorgan após o resultado fraco do primeiro trimestre de 2026, período em que a companhia registrou prejuízo líquido de R$ 445 milhões, contra perda de R$ 152 milhões um ano antes.
O banco manteve a recomendação de venda para os papéis da empresa. Na leitura dos analistas, os preços atuais não compensam os riscos envolvidos na tese de investimento. A pressão veio de fatores extraordinários ligados à reorganização da companhia, mas o ponto central é que a melhora operacional ainda não está clara.
A própria Natura afirmou que as economias esperadas com rescisões e o novo modelo operacional devem aparecer a partir do segundo semestre de 2026. Para o JPMorgan, porém, o caminho até lá continua cercado por incertezas.
Consumo fraco no Brasil pesa sobre Natura e Avon
O Brasil segue como um dos principais desafios da companhia. A receita líquida no país caiu 5,5% na comparação anual, em moeda local. O desempenho foi afetado tanto pela marca Natura, com queda de 3%, quanto pela Avon, que recuou 13,8% no período.
Segundo os analistas, parte da pressão veio da redução no número e na atividade de consultoras menos produtivas. Outro fator é a exposição ao Nordeste, considerado o principal mercado da venda direta da Natura e uma das regiões em que o consumo segue mais fraco.
O relançamento da Avon também ainda está em fase inicial. Para o JPMorgan, isso significa que a empresa deve precisar gastar mais com pesquisa, desenvolvimento e investimentos antes de mostrar sinais consistentes de recuperação.
Argentina e integração operacional aumentam o risco
Fora do Brasil, a Argentina também preocupa. A recuperação no país avança em ritmo mais lento do que o esperado, enquanto a migração entre canais de distribuição ainda não foi concluída.
Outro ponto de atenção é a entrada em operação do SAP prevista para junho. Para o banco, o movimento adiciona risco de execução operacional em um momento em que a companhia ainda tenta estabilizar resultados e recuperar tração comercial.
Na prática, a Natura atravessa uma fase em que precisa reorganizar sua estrutura, melhorar a produtividade da rede de consultoras, avançar na integração de canais e ainda lidar com mercados de consumo pressionados. O JPMorgan vê esses desafios como obstáculos relevantes para uma recuperação rápida.
Margem segue abaixo do nível de 2025
Os itens extraordinários foram o principal fator negativo do trimestre, mas o resultado ajustado também não elimina as dúvidas. Excluindo esses efeitos, a margem Ebitda ficaria perto de 12%, abaixo da margem Ebitda ajustada de 14,1% registrada em 2025.
Para o banco, a diferença precisará ser fechada com melhora de receita. O problema é que essa recuperação ainda não apareceu de forma clara nos números.
Esse ponto é importante porque a reestruturação pode aliviar custos, mas não resolve sozinha o desafio comercial. Sem retomada de vendas, principalmente no Brasil, a margem tende a continuar pressionada.
Dívida da Natura também não compensa riscos, diz banco
O JPMorgan também avaliou os títulos de dívida da Natura com vencimento em 2028 e 2029. Mesmo negociados na parte mais ampla da faixa de crédito da América Latina, o banco entende que os níveis atuais ainda não compensam os investidores pelos riscos.
Os papéis estão em uma faixa de crédito entre 4,5% e 9%, com rendimentos de 7% e 6,8%, respectivamente. Para os analistas, o retorno oferecido não é suficiente diante da incerteza sobre receita, margens e execução operacional.
