A NextEra Energy anunciou a aquisição da Dominion Energy em uma transação integralmente em ações avaliada em cerca de US$ 66,8 bilhões, criando a maior concessionária de energia elétrica regulamentada do mundo em valor de mercado. O negócio, um dos maiores da história do setor energético americano, reflete a corrida das empresas de serviços públicos para atender à demanda crescente por eletricidade impulsionada pelo boom de inteligência artificial e pela expansão dos data centers nos Estados Unidos.
Os termos do acordo preveem que a NextEra trocará 0,8138 de suas próprias ações por cada ação da Dominion em circulação, o que implica uma avaliação de US$ 75,97 por papel — prêmio de cerca de 23% sobre o último fechamento da Dominion, segundo cálculos da Reuters. A reação inicial do mercado foi mista: as ações da Dominion subiram 15% nas negociações pré-mercado, enquanto os papéis da NextEra recuaram 1,1%, movimento típico em aquisições pagas com ações pelo comprador.
O principal atrativo estratégico da operação é o acesso da NextEra ao portfólio da Dominion na região da PJM Interconnection, a maior operadora de rede elétrica dos Estados Unidos, que abrange 13 estados. Em especial, a transação abre as portas para a Virgínia — um dos maiores e mais dinâmicos mercados de data centers do mundo. A Dominion possui quase 51 gigawatts de capacidade contratada para atender data centers e tem entre seus clientes gigantes como Alphabet, Amazon, Microsoft, Meta, Equinix, CoreWeave e CyrusOne.
A área de atuação da Dominion inclui o chamado “Data Center Alley”, no norte da Virgínia — a maior concentração de data centers do planeta e um dos mercados de eletricidade de crescimento mais acelerado globalmente. Com a aquisição, a NextEra combina sua capacidade como uma das maiores desenvolvedoras de energia do mundo com a infraestrutura regulada e os contratos de longo prazo da Dominion, criando uma plataforma privilegiada para capturar o crescimento da demanda energética nas próximas décadas.
A operação se insere em uma onda de consolidação que tem varrido o setor de energia nos Estados Unidos. Neste ano, a AES Corp concordou em ser adquirida por um consórcio liderado pela Global Infrastructure Partners e pela EQT por US$ 33,4 bilhões. Antes disso, a Constellation Energy fechou acordo de US$ 16 bilhões para adquirir a Calpine, e a Blackstone comprou a TXNM Energy por US$ 11,5 bilhões. O denominador comum de todas essas movimentações é a perspectiva de que a expansão dos data centers elevará a demanda por energia elétrica pela primeira vez em duas décadas, abrindo um fluxo de receita lucrativo para as concessionárias.
A NextEra já havia dado sinais de que apostava nessa tendência ao firmar parceria com o Google para reativar uma usina nuclear em Iowa. A Dominion, por sua vez, fornece eletricidade para 3,6 milhões de clientes na Virgínia, Carolina do Norte e Carolina do Sul, enquanto a NextEra atende mais de 12 milhões de pessoas na Flórida por meio de sua concessionária regulamentada no estado. Em 31 de março, a Dominion carregava uma dívida total de longo prazo de US$ 44,11 bilhões, que passará a integrar o balanço da empresa combinada.
A conclusão da transação está prevista para um prazo de 12 a 18 meses e depende da aprovação dos acionistas de ambas as empresas, da análise antitruste e do aval de reguladores federais e estaduais, incluindo a Comissão Federal de Regulamentação de Energia, a Comissão Reguladora Nuclear e as agências reguladoras de serviços públicos da Virgínia, Carolina do Norte e Carolina do Sul. O histórico recente do setor sugere que o processo pode exigir concessões: no acordo entre Constellation Energy e Calpine, a empresa concordou em se desfazer de três usinas termelétricas a gás na Pensilvânia e no Texas, além de quatro ativos de geração na região do Atlântico Médio, para obter a aprovação regulatória.
