Recentemente fui convidado A palestrar para um grupo de estudantes em fase de conclusão do ensino médio, em preparação para o vestibular.
A ideia era compartilhar a minha experiência pelo mundo acadêmico e minha trajetória profissional.
Normalmente, quando alguém vê o resumo final do seu currículo, os postos que você ocupou nos últimos anos de atividade, tem tendência natural a enxergar uma trajetória quase linear. Poucos conseguem imaginar como foi o caminho de verdade e que a verdadeira satisfação está na jornada de superações, no filme gravado no coração e não na foto da chegada.
Como a nossa família tinha uma pequena empresa, o mais natural foi cursar Faculdade de Administração de Empresas. No meio do caminho, a empresa fechou e eu no terceiro semestre, sentado no fundo da classe, repetia para mim mesmo: não quero trabalhar como executivo!
Tinha a ambição de querer entender o mundo e me pareceu que o melhor caminho seria estudar Economia. Troca realizada e após terminar a graduação sentia que ainda não tinha sido suficiente, daí porque fui cursar Mestrado em Economia.
Terminado o programa de mestrado fui trabalhar no Departamento Econômico de um Banco e, posteriormente, fui transferido para a Seguradora do mesmo grupo, para criar um sistema de monitoramento e controle dos investimentos financeiros por agentes terceiros.
Se alguém me perguntar se eu entendia de mercado financeiro ou de sistemas de controle, a resposta é não! Zero experiência e nenhum conhecimento que a minha liderança pudesse me transferir. Fui com cara e coragem, estudando por conta própria e os sistemas que criei me credenciaram para que fosse convidado para começar a assumir o papel de gestor de investimentos.
De novo, nem eu e nem a minha liderança tínhamos operado no mercado financeiro. Mas a maior mudança ocorreu quatro depois, quando a Seguradora foi comprada por um grupo estrangeiro que fez uma verdadeira reengenharia, antes mesmo desse termo entrar em moda nos anos seguintes.
Devo ter sido única a pessoa a ter sido convidado para assumir a Diretoria Técnica de uma Seguradora, sem nunca sequer ter lido uma apólice. Essa função estava totalmente fora de tudo que eu havia estudado e imaginado. E a história se repetiu, lá fui eu, com cara e coragem, correndo atrás do tempo que eu não tinha.
Se deu certo? Decorridos quatro anos, fui convidado para recriar e ser Diretor Comercial, sem nunca sequer ter vendido uma garrafa de água no deserto.
Depois vieram novas responsabilidades até encerrar minha carreira após em que ocupei duas Vice Presidências e duas posições de CEO em quatro empresas distintas.
Dizem que se você quiser fazer Deus rir, é só contar os seus planos para ele. Movido pela ambição de querer compreender e mudar o mundo fui estudar Economia para, depois, passar a quase totalidade da minha vida adulta de profissional trabalhando como executivo.
Não mudei o mundo como sonhava, mas ajudei a reerguer e construir empresas, participei do desenvolvimento de pessoas e suas carreiras, o que foi muito mais do que poderia esperar.
Múltiplos fatores contribuíram para a minha jornada, mas teve um que se destacou: sorte de estar no lugar certo, na hora certa.
Na maior parte da minha vida profissional, não tive oportunidade de trabalhar em empresas estruturadas, que estivessem em voo de cruzeiro. Tive a sorte de trabalhar em empresas com grandes desafios e muitas turbulências. Estar nessas empresas, naquele momento, foi a grande oportunidade que tive na vida.
Qual empresa que não estivesse no meio de grande turbulência daria oportunidade a um jovem sem experiência? Claro que pelas minhas atitudes conquistei a confiança da liderança da empresa, mas as oportunidades vieram no meio da grande confusão. O que para alguns foi motivo de pedido de demissão, para mim foi a oportunidade de ouro para conquistas de novos aprendizados e conquistas
Por vezes, me lembrava da canção de protesto dos anos 60, em que Geraldo Vandré cantava: “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.
Muito mais do que um bom planejamento é preciso desenvolver competências que nos permitam reconhecer e aproveitar as oportunidades que estão em nosso entorno; não esperar que o vento mude de direção, mas sim, ajustar as velas.
