A NR-1 e a saúde mental no trabalho entram definitivamente na pauta estratégica das empresas brasileiras em 2026. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1, com vigência a partir de maio, exige que as organizações identifiquem e tratem riscos psicossociais de forma estruturada. Estresse crônico, sobrecarga, assédio moral, assédio sexual e metas inalcançáveis passam a integrar o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Durante anos, o tema ocupou espaço secundário nas empresas. Agora, a norma transforma esse cenário.
A mudança amplia a responsabilidade das organizações sobre fatores que antes recaíam sobre o indivíduo. A partir de maio, as empresas que ignoram a saúde mental no trabalho passam a responder formalmente por isso. A liderança opera sob nova pressão regulatória.
Para Carla Martins, vice-presidente do SERAC, hub de soluções corporativas nas áreas contábil, jurídica, tributária e tecnológica, a norma expõe fragilidades ainda presentes em muitos modelos de gestão. “A NR-1 traz à tona algo que várias empresas evitavam enfrentar: estruturas baseadas em pressão constante e falta de organização cobram um preço alto das pessoas e do próprio negócio”, afirma.
Os números reforçam a urgência. A Organização Mundial da Saúde estima que ansiedade e depressão causem 12 bilhões de dias úteis perdidos por ano no mundo, gerando 1 trilhão de dólares em perdas para a economia global. No Brasil, a Previdência Social concedeu mais de 546 mil benefícios por incapacidade em 2025 por transtornos mentais e comportamentais. Trata-se de um recorde histórico.
Liderança no centro da mudança
Com a nova exigência regulatória, a saúde emocional deixa de ser uma pauta pontual. A norma exige mudanças sistêmicas em metas, processos, cultura organizacional e, principalmente, na liderança.
“Não se trata de transformar gestores em terapeutas. Trata-se de exigir líderes mais preparados para organizar o trabalho de forma sustentável”, afirma Martins.
Ambientes com urgência permanente, metas difusas e comunicação pouco clara tendem a aumentar erros, retrabalho e rotatividade. Nesse contexto, programas de bem-estar desconectados da rotina real perdem eficácia. “Não adianta falar de saúde mental mantendo metas incompatíveis com a capacidade das equipes. A norma força essa discussão”, diz a executiva.
O que muda na prática com a NR-1
A norma exige ações concretas das empresas. Entre os principais movimentos que tendem a ganhar força estão o mapeamento de riscos psicossociais com método, a preparação de lideranças para reconhecer sinais de sobrecarga e a revisão de metas e processos que geram estresse. Além disso, as organizações precisam escolher parceiros estratégicos que integrem gestão, cultura e indicadores, e tratar a saúde emocional como um indicador de gestão, com métricas consistentes de clima organizacional e segurança psicológica.
“A norma não cria um problema novo. Ela torna visível um custo que muitas empresas preferiam ignorar”, afirma Martins.
Empresas já antecipam a NR-1 com iniciativas próprias
A nova regulamentação impulsiona a demanda por formação de líderes e consultoria organizacional. O SERAC registrou aumento na procura por capacitação em gestão de pessoas, cultura corporativa e saúde emocional. A frente educacional da empresa respondeu por mais de 40 milhões de reais no período, com projeção de superar 60 milhões em 2026.
A peopletech FairJob lançou neste ano a FairHealth, divisão voltada a programas corporativos de Medicina do Estilo de Vida. A proposta inclui acompanhamento multidisciplinar e espaços de escuta estruturada dentro das empresas. “Muitas pessoas não encontram espaço no trabalho para falar sobre problemas familiares, financeiros ou emocionais. Quando esses temas ficam silenciados, aparecem no dia a dia da empresa”, afirma Fernando Brancaccio, diretor da FairJob.
A Chemitec Agro-Veterinária inaugura o chamado “Escritório do Cuidado”, organizado pela FairJob, com equipe multidisciplinar de acompanhamento de funcionários. “Desde 2019 realizamos pesquisas de felicidade interna. O espaço reforça esse olhar e oferece suporte para questões pessoais que os funcionários muitas vezes não sabem como tratar”, afirma Luana Peçanha, gerente de RH da empresa.
Heineken, Chilli Beans e Vivo já saíram na frente
Mesmo antes da atualização da NR-1, algumas empresas reforçaram iniciativas de bem-estar. Na Heineken Brasil, a Diretoria da Felicidade surgiu em 2022 com abordagem preventiva. “A ideia foi agir antes do problema aparecer”, afirma Mauricio Giamellaro, CEO da companhia. Os afastamentos por saúde mental ficaram em 0,06% e o turnover caiu para 0,6%, abaixo da média do setor.
A Chilli Beans adotou um programa de felicidade corporativa em 2023. A iniciativa começou como projeto temporário e, após resultados positivos, tornou-se parte da estratégia da empresa. O turnover caiu de 31% para 28% em 2024, enquanto o EBITDA cresceu 33%.
A Vivo aposta em uma abordagem que começa na empresa e alcança os dependentes dos funcionários. Além do programa Vivo Bem-Estar, a companhia lançou o Hospital Púrpura, plataforma digital de atenção primária à saúde com atendimento contínuo iniciado pelo WhatsApp. “Para nós, gente é a nossa melhor tecnologia. Cuidar das pessoas fortalece a empresa no longo prazo”, afirma Fernando Luciano, vice-presidente de Pessoas da Vivo.
Saúde emocional entra na agenda estratégica
Para Brancaccio, da FairJob, o primeiro impacto concreto dessas iniciativas é reduzir perdas com afastamentos, baixa produtividade e rotatividade. Mas a tendência vai além. “Muitas empresas olham para a inteligência artificial como prioridade. O cuidado com as pessoas, no entanto, tende a se consolidar como uma nova forma de inteligência organizacional”, afirma.
A NR-1 acelera a entrada definitiva da saúde emocional na agenda das empresas. A questão central permanece: as organizações estão dispostas a rever metas, processos e estilos de liderança, ou a norma corre o risco de virar mais uma exigência formal? A resposta pode definir não só o clima nas empresas, mas também a sustentabilidade dos resultados no longo prazo.
