Durante meu curso de graduação li o livro “O trabalho em migalhas”; que tratava da alienação que a excessiva fragmentação do trabalho, impulsionado pelo Taylorismo, provocava nos trabalhadores.
A crítica era dirigida à forma de organização do trabalho no chão de fábrica, época em que o setor industrial era ainda o grande motor da economia.
De lá para cá, muitas coisas mudaram. Cenas imortalizadas por Charles Chaplin no seu filme “Tempos Modernos” já não são as principais causas de problemas no mundo do trabalho.
A era da informatização trouxe junto com a globalização transformações profundas na organização e na própria relação do indivíduo com o mundo do trabalho.
Cenas em que Homer Simpson ia para casa após o trabalho, tomava cerveja e aos finais de semana se deliciava com churrasco no seu quintal são cenas do passado.
A separação explícita entre o trabalho e a vida pessoal, para muitos, já não existe. Quando o celular foi lançado, possuí-lo era, além de tudo, um sinal de “status”. Hoje, mantê-lo desconectado é um sinal de poder. É o sinal inequívoco de controle do seu tempo.
Mas convenhamos que isso é para poucos. A maioria vive sob pressão constante para atender a múltiplas demandas, sejam de reuniões que nem sempre estão interligadas, aprendizado de novas habilidades demandas pela inteligência artificial, temor silencioso de ficar tecnologicamente ultrapassado, sem deixar de mencionar a insatisfação com os processos de avaliação e o seu “feed back” que poucas vezes serve de guia para seu aperfeiçoamento.
Todo esse cenário em contraste com o mundo repleto de oportunidades que as cadeias de informações nos apresentam, provoca uma desordem na nossa consciência. O tamanho desse “gap” é o tamanho da nossa frustração.
Ao longo da minha carreira vivi momentos como esse, em que o custo da transição radical era muito alto. Estava preso a uma armadilha: ganhava bem para jogar tudo para o alto e ainda não tinha reserva financeira suficiente para bancar tal decisão.
Foi quando decidi jogar golf e o principal motivo era fazer algo que eu mesmo pudesse julgar objetivamente o resultado do meu esforço, sem nenhuma opinião externa.
Sabemos que as avaliações de desempenho estão longe de estarem isentas de ruídos. Há muitas variáveis não correlacionadas com “performance”, que impactam diretamente nas mesmas.
No golf a avaliação é bastante simples. É a quantidade de tacadas que você deu na bola para embocá-la nos 18 buracos. Posso ter feito jogadas excelentes, mas o que conta é a quantidade de vezes que você tocou na bola com seus tacos. Como cada jogador só toca na sua bola, meu resultado não é afetado pelo resultado do outro jogador. Sou único o responsável pelo meu desempenho.
Fiquei mais fã do esporte a partir do momento em que percebi que eu tinha controle do processo. Situação onde você define as metas, controla a evolução e tem resposta inequívoca quanto à sua evolução.
É aquela situação onde você pode investir seu tempo e energia livremente para a conquista de suas metas pessoais, atuando de modo coerente com seus objetivos. Por ter o controle do processo, experimentamos uma emoção ótima e não percebemos o tempo passar.
Quando estamos diante de uma situação que não posso alterar, só nos resta nos mudarmos. Assim como escolhi golf, se você está se sentindo acuado e sem controle, escolha algo a qual possa dedicar sua energia e paixão em busca de maior equilíbrio para sua saúde mental. Busque o que te faz sentir-se bem tal como fotografia, artes, culinária, fazer trilhas a pé ou num 4×4. Busque algo em que você tenha o controle do processo.
Não importa a quantidade de horas que nos dediquemos a essa terapia, porque sempre teremos nela um porto seguro onde possamos nos ancorar quando os mares se tornarem revoltos.
