Por muito tempo acreditei que eu poderia controlar meus pensamentos e ações, que era senhor do meu cérebro. Que ingenuidade a minha!
Só foi nos últimos anos que, através de leituras e estudos, pude perceber o tamanho da minha ignorância. O cérebro é tudo, menos nosso coadjuvante. Ele tem um mandato próprio, que é o de garantir a sobrevivência do organismo, e, para isso, ele precisa preservar a energia ao máximo. Sem energia não há vida.
São múltiplas as implicações desse pressuposto.
Já ouvimos falar que o cérebro representa menos de 2% do peso corporal e consome aproximadamente 20% de toda energia que o corpo humano produz. Mas talvez não tenhamos claro que, ao administrar a distribuição de energia para o corpo, ele garante primeiro a fatia de glicose para si, deixando o resto para os outros órgãos.
O cérebro, essencialmente, é uma máquina de previsão que procura reduzir ao máximo as incertezas que nos cercam, construindo um cenário previsível que possibilite a criação de padrões automáticos de respostas, com o objetivo de economizar energia.
Ambiente de incerteza em relação ao futuro, é um grande vertedouro de energia, o que não significa que o cérebro usará automaticamente de raciocínios elaborados para dirimir as incertezas. Primeiro impulso é buscar explicações que sejam coerentes, substituindo relações de causa e efeito por correlação. Dúvidas e questionamentos consomem muita energia, logo se satisfaz com respostas coerentes, ainda que não sejam verdades.
Encontrar a melhor solução para um problema não faz parte do modo automático de funcionamento do cérebro. Cabe ao Córtex Pré-Frontal (CPF) gerenciar as funções executivas tais como: planejamento, controle dos instintos, manutenção do foco e uma flexibilidade cognitiva que permite se adaptar às incertezas, atuando como CEO do cérebro.
Assim como CEO de qualquer empresa, o CPF representa o maior consumo de energia do cérebro. Quanto mais coisas fluírem no piloto automático haverá menor consumo de energia. O CPF só atua sob demanda em prol da economia de energia. Nós é que imaginamos que as nossas decisões são frutos da razão, quando na verdade, na maioria dos casos, elaboramos explicações racionais para escolhas já efetuadas. Essa racionalização a posteriori que é também conhecida como viés de confirmação.
Em suma, o cérebro faz gestão da energia necessária para nossa sobrevivência e atuará do modo mais automático possível, a fim de economizá-la. A parte cognitiva intervirá somente sob demanda, ainda que na maioria das vezes não imaginemos o contrário. E essa miopia é uma grande fonte de problemas em todas as esferas da vida.
Uma situação frequente de como esse mecanismo opera no dia a dia, pode ser exemplificado pelas situações onde alguém vive uma relação tóxica, seja no âmbito pessoal ou profissional e não tem forças para mudar de relacionamento ou emprego.
A frase: “o inverno é um lugar conhecido” dá um ótimo gancho para entendermos esse comportamento.
Qualquer mudança envolve um grau de risco pela incerteza inerente envolvida na troca. Nessa situação o nosso cérebro consome uma grande quantidade de energia. Perceba que no dia a dia, quando lidamos com situações de risco por períodos mais longos, nos sentimos fisicamente esgotados. É a energia sendo drenada para o cérebro.
Por mais desconfortável que seja o “inverno” que a pessoa esteja vivendo, não há grandes surpresas nem incertezas. É aquilo que já conhecemos, não há gasto adicional de energia e a nossa “sobrevivência” parece mais segura.
A saída para essa armadilha é o uso mais frequente e intenso do Córtex Pré-Frontal, abandonar as respostas prontas e perceber que o medo pode ser fruto simplesmente de um cérebro acomodado.






