A Pamplona Alimentos planeja investir R$ 150 milhões em 2026 para ampliar granjas, automatizar fábricas e desenvolver produtos de maior valor agregado. A companhia catarinense também passou a avaliar aquisições como parte de uma estratégia de expansão que combina crescimento orgânico, inovação e profissionalização da gestão.
O novo ciclo começa após 78 anos sob o comando direto da família fundadora. Ronaldo Kobarg Müller, executivo com passagens por Sadia, Seara, JBS e Pif Paf, assumiu a presidência da empresa depois de atuar como vice-presidente desde 2023.
Irani Pamplona Peters, que ocupava o cargo de CEO desde 2009, passou a presidir o Conselho de Administração. A família permanece presente na administração, com representantes em áreas como comercial e inovação.
Dos sete diretores atuais, quatro vieram do mercado e três pertencem à família controladora. A companhia busca adotar práticas de governança semelhantes às de empresas listadas, embora não tenha planos de abrir o capital.
“Nós não queremos continuar sendo a empresa que somos hoje. A Pamplona vai crescer”, afirmou Müller.
Receita pode superar R$ 2,7 bilhões em 2026
A Pamplona encerrou 2025 com R$ 2,5 bilhões em faturamento e prevê crescer 8% neste ano. Caso a projeção se confirme, a receita poderá superar R$ 2,7 bilhões.
O avanço deverá vir da expansão da produção, de ganhos de eficiência e da oferta de alimentos com maior valor agregado. A empresa também pretende aproveitar a estrutura ampliada nos últimos anos para aumentar o volume sem comprometer a disciplina financeira.
Antes do plano atual, a companhia havia investido R$ 144 milhões na modernização das unidades de Rio do Sul e Presidente Getúlio, em Santa Catarina, além de melhorias em granjas e na fábrica de ração de Laurentino.
Agora, cerca de R$ 65 milhões serão direcionados à ampliação da produção de leitões. O projeto inclui duas novas granjas e deverá ser executado ao longo de três anos, com apoio da Financiadora de Estudos e Projetos, a Finep.
Em Pouso Redondo, a Granja Ribeirão Vassouras receberá R$ 52,8 milhões e integrará o programa de melhoramento genético da companhia. Outra unidade, chamada Granja Lauro Pamplona, será construída em Rio do Sul com investimento de R$ 11,2 milhões para difusão genética e processamento de sêmen suíno.
Outros R$ 80 milhões serão destinados à automação das fábricas e ao desenvolvimento de tecnologias para produtos diferenciados.
Aquisições entram no radar
Apesar dos investimentos na estrutura própria, a empresa considera que o crescimento orgânico pode não ser suficiente para sustentar a expansão no longo prazo.
A Pamplona passou a prospectar empresas e ativos industriais que possam complementar sua operação, acrescentar tecnologia ou abrir novas frentes de negócios. Ainda não há negociações anunciadas nem prazo definido para uma aquisição.
“Se encontrarmos alguma coisa que combine com a nossa cultura e tenha tecnologia que possa complementar o que fazemos, podemos adquirir algo no mercado”, disse o CEO.
A estratégia não prevê abandonar o controle familiar. O objetivo é equilibrar a cultura construída desde 1948 com uma gestão mais profissional, processos de governança e maior capacidade de investimento.
Canetas emagrecedoras abrem oportunidade para proteínas
Uma das tendências acompanhadas pela companhia é o avanço da demanda por alimentos ricos em proteína, associado, entre outros fatores, ao aumento do uso de medicamentos à base de GLP-1.
Esses tratamentos podem levar à perda de massa magra junto com a redução de gordura, o que tem ampliado o interesse dos consumidores por dietas com maior presença de proteínas. A Pamplona considera que esse comportamento pode favorecer cortes suínos magros e produtos voltados à saudabilidade.
Segundo dados da Tabela Brasileira de Composição de Alimentos, da Unicamp, 100 gramas de lombo suíno cru possuem, em média, 22,6 gramas de proteína. O volume supera o registrado na mesma quantidade de peito de frango com pele, com 20,8 gramas, e de miolo de alcatra sem gordura, com 21,6 gramas.
A empresa ainda não identificou efeito relevante dessa tendência sobre as vendas, mas avalia que o impacto poderá aparecer nos próximos anos.
“Somos uma empresa que produz proteína. Se tivermos um produto associado à saudabilidade e à praticidade, teremos uma boa oportunidade pela frente”, afirmou Müller.
Recentemente, a companhia também lançou uma linha voltada ao preparo em air fryer. A estratégia busca acompanhar a expansão do eletrodoméstico, presente em 44% dos lares brasileiros, segundo dados da Kantar.
Consumo de carne suína ainda pode avançar no Brasil
Metade da receita da Pamplona vem do mercado interno. Em 2025, as vendas no Brasil somaram R$ 1,27 bilhão, o equivalente a 50,3% do faturamento. As exportações responderam por R$ 1,26 bilhão, ou 49,7%.
A companhia exporta para 22 países, com destaque para China, Japão, Filipinas, Coreia do Sul e Malásia. Mesmo com a relevância dos embarques, a administração não pretende reduzir a presença no mercado brasileiro.
O consumo doméstico de carne suína gira em torno de 19 quilos por pessoa ao ano, segundo a estimativa apresentada pelo CEO. Na Alemanha, o volume chega a aproximadamente 55 quilos.
Um aumento de apenas um quilo no consumo per capita brasileiro poderia representar demanda adicional de cerca de 220 mil toneladas, volume superior às 132,4 mil toneladas exportadas pelo país em junho.
Para a Pamplona, essa diferença mostra que ainda há espaço para ampliar a presença da carne suína na alimentação dos brasileiros, principalmente por meio de cortes magros, produtos práticos e comunicação voltada às características nutricionais.
Empresa reduz dívida e evita captações com juros altos
A Pamplona encerrou 2025 com dívida líquida de R$ 329,6 milhões, queda de 2,3% em relação ao ano anterior. A relação entre dívida líquida e Ebitda ficou em duas vezes.
O lucro líquido recuou 35%, de R$ 85,8 milhões em 2024 para R$ 56,3 milhões no ano passado. Segundo Müller, o resultado foi afetado pela decisão de utilizar recursos próprios nos investimentos, evitando novas dívidas em um ambiente de juros elevados.
Em 2024, a companhia estreou no mercado de capitais do agronegócio com uma emissão de Certificado de Recebíveis do Agronegócio de R$ 60 milhões. O título, adquirido pela Kinea, vence em dezembro de 2029.









