Outro dia, numa roda de conversa, falávamos sobre como resolver um problema quando alguém disse: basta aplicar o bom senso. Nisso, interveio um outro amigo, dizendo: “para um antropófago, bom senso é ele te comer no jantar”.
Esse é o risco de julgarmos os outros a partir do que somos. Projetamos a reação alheia baseado no nosso ponto de vista, pensamos que eles compartilham da mesma lógica, do mesmo raciocínio.
É claro que quando estamos numa disputa declarada procuramos aplicar os ensinamentos de Sun Tzu, no seu livro “A Arte da Guerra”, quanto a importância de se conhecer a si e ao inimigo.
Mas nem sempre estamos em batalha declarada, aliás, boa parte das disputas ocorrem em território amigo e, muitas vezes, elas passam despercebidas.
Há pessoas que podemos denominar como contratualistas. A sua ação é determinada pelo cumprimento do contrato, ainda que isso possa significar eventuais perdas individuais.
Outros, no entanto, de forma dissimulada buscarão privilegiar seus interesses individuais em relação ao coletivo. Sem que seja necessariamente, de forma conflitiva, mas procurarão brechas onde possam obter alguma vantagem. Numa operação de soma zero, ganho de um significa perda para outro.
Imagine os danos que o primeiro poderá sofrer ao lidar com o segundo, supondo que este se comporte sob os mesmos princípios.
Seja por motivos religiosos ou de natureza ética, muitos idealizam um mundo sem barreiras onde todos possam viver em irmandade (John Lennon – música Imagine).
Entender a utopia como algo que não é, mas pode vir a ser, é fundamental para o processo de criação e evolução. É o sonho que nos motiva e nos orienta.
Um dos problemas que existe nessa jornada é a presunção adjacente ao realismo ingênuo.
O que está por trás dessa percepção é o entendimento de que o mundo é exatamente como vejo, não deixando espaço para questionamento, aceitando essa interpretação como sendo verdadeira.
O passo contíguo é, a conclusão de que, dado que essa é a realidade, não é possível que outros não a vejam como eu. Logo, agimos esperando inconscientemente que todos estejam na mesma página.
Ainda que conscientemente saibamos que diante da complexidade do mundo físico e social, esse desejo não passe de um anseio simplista, a força do inconsciente pela busca de uma explicação simples e coerente faz com que confundamos familiaridade com verdade.
Não reconhecer a complexidade das relações e a diversidade dos pensamentos, por exemplo, pode tornar mais fácil lidar com nosso cotidiano, mas a força da realidade terminará por se impor. É o que há muito se fala: “Não adiante tapar o sol com a peneira”.
Não há dúvida que seria muito melhor se todos nós tivéssemos o mesmo entendimento, os mesmos objetivos e caminhando lado a lado. Mas, assim como é possível criar um belo jardim no meio da mata, por que não poderíamos alinhar os interesses individuais em prol de um objetivo coletivo, num jogo de ganha x ganha?
O primeiro passo para a construção desse edifício é aceitar que existe diversidade de visões e interesses. Dessa diversidade é preciso identificar um elemento unificador, que se sobreponha aos interesses individuais.
Há uma parte nesse processo que poucos dão importância durante a execução e que somente chama atenção quando ocorre um problema. Numa construção, a parte que está abaixo do piso chama pouca atenção; só a notamos quando, por exemplo, a ligação do esgoto foi mal executada.
E como num trabalho de evangelização, não basta falar uma vez, é preciso muito reforço, não só verbal, mas principalmente através de ações e exemplos. Ponto importante, você não pode partir da premissa de que eles sabem o que você sabe, ainda que em algum momento você possa pensar: mas como isso é possível?
Nem sempre os membros das famílias, agremiações e empresas têm visão e objetivos congruentes. Assim como um jardim, a construção das metas comuns requer trabalho e, principalmente, muita manutenção para corrigir os desvios e erradicar as ervas daninhas para, não só permanecer bonita, mas continuar aprimorando a sua beleza.
Esse é um trabalho permanente que requer muita resiliência e humildade para aceitar que a sua visão não é única nem a mais correta, e que se os outros não o entendem, não os culpe, se esforce mais para se fazer entendido.







