A Pax, startup brasileira de inteligência artificial voltada à segurança pública, levantou US$ 40 milhões, cerca de R$ 200 milhões, em uma rodada liderada pelos fundos Greenoaks e Benchmark. A captação é considerada a maior rodada seed já registrada no Brasil.
A empresa desenvolve uma plataforma que conecta câmeras, registros policiais e bases criminais para gerar inteligência em tempo real a forças de segurança. A proposta é acelerar investigações, cruzar dados que hoje estão dispersos e apoiar o trabalho de policiais em campo.
Fundada por David Peixoto, executivo que participou da trajetória da Arco Educação até o IPO na Nasdaq e depois cofundou a edtech isaac, a Pax reúne engenheiros formados em instituições como Stanford, Harvard, MIT, ITA e USP.
Rodada seed chama atenção pelo tamanho
No mercado de venture capital, a rodada seed costuma marcar uma fase inicial de investimento. É o momento em que fundos apostam em startups ainda jovens, antes de grande escala, mas com potencial de crescimento acelerado.
Por isso, o valor captado pela Pax chama atenção. A empresa atraiu investidores conhecidos por aportes iniciais em companhias globais de tecnologia. A Greenoaks já investiu em nomes como Coupang, Brex, Revolut, Flock Safety e Anthropic. A Benchmark tem no histórico apostas em empresas como Uber, eBay, Instagram e Snap.
A entrada desses fundos mostra o interesse crescente por aplicações de IA em áreas pouco digitalizadas. Segurança pública é uma delas. Em muitos casos, investigações ainda dependem de consultas manuais, análise de imagens, cruzamento de placas e sistemas que não conversam entre si.
IA para cruzar câmeras, registros e bases criminais
A Pax quer resolver justamente essa fragmentação. A plataforma organiza informações de diferentes fontes e transforma esses dados em pistas investigativas e alertas em tempo real.
Segundo a empresa, em sua primeira operação em larga escala, em Luziânia, em Goiás, a tecnologia esteve associada a uma queda de 27% nos crimes violentos em seis meses. A companhia afirma ainda que a eficiência policial dobrou no período e que a sensação de segurança da população aumentou 59%, de acordo com levantamento do instituto Real Time Big Data.
Ao longo do último ano, forças de segurança que utilizam a plataforma ajudaram a esclarecer mais de 2 mil casos criminais em mais de 30 cidades brasileiras, incluindo homicídios, roubos à mão armada e furtos de veículos, segundo a Pax.
Baixa resolução de crimes abre espaço para tecnologia
A captação acontece em um contexto de baixa resolução de homicídios no Brasil. De acordo com dados do Instituto Sou da Paz citados no material, menos de 40% dos homicídios são solucionados no país. A média mundial é de 63%, enquanto a europeia chega a 92%.
Para David Peixoto, a dificuldade está ligada à forma como os dados são organizados e acessados pelas forças de segurança.
“O gargalo da investigação é um problema de dados”, afirma Peixoto, fundador e CEO da Pax. “Construímos a Pax do zero para conectar informações do mundo real e torná-las úteis em tempo real. O policial decide. A plataforma potencializa a capacidade dele.”
A fala aponta um ponto central da estratégia da empresa: vender a IA como ferramenta de apoio, e não como substituta da decisão policial. O sistema busca reduzir o tempo gasto em tarefas repetitivas e aumentar a capacidade de análise das equipes.
Segurança pública entra na agenda do venture capital
A rodada da Pax também indica uma mudança no tipo de problema que startups de IA estão tentando enfrentar. Depois de ganhar espaço em produtividade, atendimento, programação, marketing e análise de dados, a inteligência artificial começa a avançar sobre setores com impacto direto em políticas públicas e infraestrutura social.
No caso da segurança, o potencial de mercado se mistura a um problema econômico amplo. Segundo dados do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) citados pela reportagem, a violência custa cerca de 3,5% do PIB da América Latina, o equivalente a US$ 241 bilhões em 2025, ou cerca de R$ 1,2 trilhão.
Esse custo inclui perdas humanas, impacto sobre negócios, gastos públicos, seguros, produtividade e redução da atividade econômica em regiões mais afetadas pela violência.
Para os fundos, a tese da Pax combina problema grande, baixa digitalização e possibilidade de escalar tecnologia em governos estaduais e municipais.
“Pergunte aos brasileiros qual problema eles mais querem ver resolvido, e a resposta número um será a violência”, afirma Andrew Cohen, sócio da Greenoaks. “Hoje, os roubos de veículos despencaram no primeiro estado em que a Pax opera, e os policiais já não conseguem imaginar trabalhar sem a plataforma.”
