Gilson Finkelsztain passou mais de três décadas entre mesas de operações, bancos internacionais e empresas que sustentam parte da infraestrutura do mercado financeiro brasileiro. Em julho de 2026, iniciou um novo capítulo dessa trajetória ao assumir como CEO do Santander Brasil, retornando a uma instituição onde havia trabalhado mais de dez anos antes.
A chegada ao comando do banco ocorreu depois de quase nove anos como presidente da B3, de abril de 2017 a junho de 2026. Antes disso, Finkelsztain havia liderado a Cetip, participado da fusão com a BM&FBovespa e assumido a empresa resultante da operação, responsável por reunir diferentes mercados e serviços de infraestrutura financeira.
O currículo ajuda a dimensionar a mudança. Finkelsztain passou por Citigroup, JPMorgan, Bank of America Merrill Lynch e Santander, acumulando experiência em áreas como câmbio, renda fixa, derivativos e mercados de capitais. Sua carreira, porém, começou longe do plano profissional que imaginava enquanto estudava engenharia no Rio de Janeiro.
Da engenharia para o mercado financeiro
Finkelsztain formou-se em Engenharia Civil pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, entre 1990 e 1994. Em 2011, também concluiu o Advanced Management Program do INSEAD.
O plano inicial era seguir uma trajetória ligada à engenharia e, eventualmente, ter a própria construtora. A entrada no setor financeiro aconteceu por meio de um estágio no Citibank, ainda no Rio de Janeiro.
Na primeira função, trabalhou com tecnologia e análise de dados aplicada a campanhas enviadas por mala direta, em uma atividade que ele próprio comparou posteriormente ao que hoje seria chamado de analytics e big data. Depois de cerca de um ano e meio, entrou no programa de trainees do banco e mudou-se para São Paulo.
Foi nessa fase que se aproximou das mesas de operações. Passou por atividades relacionadas a câmbio, juros, opções e trading, antes de avançar para funções comerciais e de liderança.
A experiência internacional surgiu ainda nos primeiros anos de carreira. Finkelsztain morou nos Estados Unidos e na Cidade do México, retornando depois ao Brasil para trabalhar no atendimento a clientes.
Quase 14 anos no Citi
O Citigroup foi a principal escola profissional do início de sua carreira. Finkelsztain permaneceu no grupo entre agosto de 1993 e maio de 2007, uma passagem de quase 14 anos, encerrada quando já ocupava posição de diretor.
Em 2005, começou a buscar uma experiência diferente dentro do próprio banco. Chegou a surgir uma oportunidade para comandar um negócio nas Filipinas, mas o momento familiar pesou contra uma mudança para um destino tão distante.
A decisão de deixar o Citi abriu uma sequência de passagens por outras instituições globais.
Em junho de 2007, Finkelsztain ingressou no JPMorgan como diretor executivo e responsável por áreas ligadas a marketing de derivativos e vendas locais no Brasil. Ficou na instituição até maio de 2010.
A experiência coincidiu com a crise financeira internacional de 2008, período que afetou planos de expansão do setor bancário e colocou o executivo diante de uma nova transição profissional.
JPMorgan, Bank of America e a primeira passagem pelo Santander
Após o JPMorgan, Finkelsztain passou pelo Bank of America Merrill Lynch. Entre junho de 2010 e março de 2011, atuou como managing director e liderou vendas de FICC no Brasil, área relacionada a produtos de renda fixa, moedas e commodities.
Em abril de 2011, chegou ao Santander. O retorno em 2026, portanto, não representa sua primeira experiência no banco.
Na passagem anterior, permaneceu até agosto de 2013 como managing director e head de Rates. O período também ampliou sua exposição à infraestrutura do mercado financeiro, porque passou a integrar o conselho de administração da Cetip entre julho de 2011 e julho de 2013.
Foi justamente essa relação que preparou a mudança mais importante da carreira até então.
O convite para comandar a Cetip
Em 2013, a Cetip iniciou um processo de sucessão após a decisão de seu então presidente, Luiz Fleury, de se aposentar. Finkelsztain foi convidado a participar da escolha do novo líder.
A decisão não foi imediata. Depois de duas décadas construídas majoritariamente em bancos, assumir a presidência de uma companhia representava uma mudança significativa de função e de trajetória.
Finkelsztain aceitou.
Em agosto de 2013, tornou-se diretor-presidente da Cetip, posição que ocupou até abril de 2017. A empresa era uma das estruturas centrais do mercado brasileiro de títulos privados de renda fixa e outros ativos financeiros.
A passagem pela companhia acabaria levando diretamente à B3.
A fusão que criou a B3
Durante a gestão de Finkelsztain na Cetip, avançaram as negociações para uma combinação com a BM&FBovespa.
O processo passou por uma negociação prolongada e pelas aprovações regulatórias necessárias, incluindo autoridades como o Conselho Administrativo de Defesa Econômica e a Comissão de Valores Mobiliários.
Em 2017, a integração das empresas deu origem à B3. Finkelsztain foi selecionado para comandar a nova companhia e assumiu como CEO em abril daquele ano.
A mudança colocou sob a mesma estrutura diferentes partes do mercado brasileiro. De um lado, estavam os negócios historicamente ligados à negociação de ações, futuros e derivativos. Do outro, a infraestrutura construída pela Cetip em registros e ativos de renda fixa.
Finkelsztain permaneceu no comando até junho de 2026, completando mais de nove anos como CEO.
Nesse período, a B3 ampliou sua presença em negócios ligados a renda fixa, dados, tecnologia e outros serviços financeiros, reduzindo a dependência exclusiva da imagem tradicional de uma bolsa voltada à negociação de ações.
Sua atuação internacional também ganhou espaço. Entre junho de 2017 e junho de 2026, integrou o conselho da World Federation of Exchanges, organização que reúne bolsas e operadores de infraestrutura de mercado de diferentes países.
A volta ao Santander, agora como CEO
O novo movimento foi anunciado em 2026. Depois de quase uma década à frente da B3, Finkelsztain deixou a companhia para assumir a presidência do Santander Brasil.
A posse ocorreu em julho, após o encerramento da gestão de Mario Leão. O próprio perfil profissional de Finkelsztain registra o início da função como CEO do banco naquele mês.
A mudança representa uma espécie de retorno às origens, mas em outra escala. Entre 2011 e 2013, ele havia passado pelo Santander em uma posição ligada aos mercados financeiros. Mais de uma década depois, voltou para comandar toda a operação brasileira.
O desafio também mudou. Finkelsztain chega ao banco em um período de pressão crescente sobre instituições tradicionais, que enfrentam concorrência de fintechs, mudanças no comportamento dos clientes e a necessidade de modernizar estruturas tecnológicas.
No Santander, encontra uma operação que trabalha em iniciativas de digitalização, revisão da rede física e integração de serviços em plataformas digitais.
Uma carreira construída entre bancos e infraestrutura financeira
A trajetória de Gilson Finkelsztain combina duas experiências que nem sempre aparecem juntas no currículo de um executivo.
A primeira foi construída dentro de grandes bancos internacionais, com passagens por Citi, JPMorgan, Bank of America Merrill Lynch e Santander. A segunda veio do comando de empresas responsáveis pela infraestrutura que permite o funcionamento do próprio mercado.
Ele deixou de atender e estruturar operações financeiras para liderar a Cetip. Depois, participou da criação da B3 e permaneceu quase uma década à frente da companhia.
Agora, retorna ao setor bancário com uma experiência distinta daquela que possuía quando deixou o Santander em 2013. O executivo que volta ao grupo em 2026 carrega no currículo a integração de duas grandes infraestruturas de mercado e nove anos no comando da bolsa brasileira.
