Socialtech brasileira cria metodologia para comunidades gerirem plataformas digitais

Uma pesquisa conduzida por especialistas do Brasil e do Reino Unido apresentou uma metodologia para permitir que comunidades participem da gestão de plataformas digitais. O estudo foi publicado no The Design Journal, periódico internacional da área de design, e tem como base a experiência da Reapp Mobi, socialtech brasileira criada no Maranhão.

A metodologia recebeu o nome de Digital Commons Design (DCD). A proposta é transformar a teoria dos bens comuns digitais em um conjunto de práticas para desenvolver plataformas administradas de forma mais coletiva, com participação direta das comunidades que utilizam essas ferramentas.

O artigo, assinado por Rosendy Galabo, Justin Sacks, Marcella Abreu dos Santos e Jovemar Junior, parte de uma pergunta central: como criar plataformas digitais que não sejam controladas apenas por empresas ou governos, mas também pelas próprias comunidades impactadas por elas?

Plataforma foi redesenhada com organizações sociais do Maranhão

A metodologia foi desenvolvida a partir da experiência da Cooperativa Digital, projeto de pesquisa financiado pela Digital Good Network e realizado com organizações da sociedade civil do Maranhão.

O ponto de partida foi a Reapp Mobi, plataforma que conecta organizações sociais, empresas e doadores para facilitar a destinação de notas fiscais e fortalecer a captação de recursos para projetos sociais.

Durante o estudo, os pesquisadores identificaram um problema no funcionamento do aplicativo. O algoritmo priorizava organizações ou projetos cadastrados mais recentemente, o que gerava uma percepção de distribuição injusta das doações entre as entidades participantes.

A partir desse diagnóstico, as organizações foram convidadas a participar da revisão das regras de funcionamento da plataforma. Em oficinas colaborativas, as OSCs apontaram três prioridades: ampliar o engajamento dos doadores, diversificar formas de captação e aumentar a participação coletiva nas decisões sobre a distribuição dos recursos.

Essas contribuições orientaram o redesenho da Reapp Mobi, com novas funcionalidades, critérios de governança e mecanismos de decisão compartilhada. A nova versão da plataforma foi lançada no Google Play no início de 2025.

O que são bens comuns digitais

Bens comuns digitais são recursos, plataformas ou ambientes online que podem ser administrados coletivamente por uma comunidade. O conceito busca criar alternativas a modelos nos quais empresas concentram dados, regras de uso e decisões sobre plataformas.

“Por muito tempo, a gente aceitou essa ideia de que, para utilizar a internet, precisaríamos entregar nossos dados e nossa autonomia a algumas poucas empresas globais. Na verdade, as comunidades podem criar suas próprias ferramentas digitais, onde as decisões e os benefícios ficam onde realmente importam: nas mãos das pessoas”, afirma Rosendy Galabo, coordenador da pesquisa.

A metodologia DCD se apoia nos princípios de governança de bens comuns formulados por Elinor Ostrom, economista vencedora do Prêmio Nobel. O framework organiza esses princípios em três frentes: desenho de interações e resultados, estímulo a comportamentos e usos, e definição de pertencimento e processos de decisão coletiva.

Pesquisa dialoga com agenda da ONU

O estudo está alinhado à agenda Our Common Agenda, da Organização das Nações Unidas (ONU), que defende o fortalecimento dos bens comuns digitais como estratégia para ampliar cooperação, participação cidadã e equidade no ambiente online.

Para os pesquisadores, a equidade digital não deve ser definida de forma abstrata. O que é justo, inclusivo ou desejável precisa ser construído com as próprias comunidades envolvidas.

“Equidade, pra mim, é compartilhar também locais de decisão e influência de forma voluntária. Incluir todos os atores impactados em um projeto social ou digital desde a concepção”, afirma Jovemar Junior, da Reapp Mobi.

Além da contribuição acadêmica, a expectativa é que a metodologia seja aplicada em projetos de inovação social, políticas públicas e iniciativas de tecnologia voltadas à participação cidadã e à soberania digital.

Reapp reúne mais de 300 organizações

Criada em 2021, a Reapp Mobi reúne mais de 300 organizações em 21 estados brasileiros. A plataforma já apoiou mais de 25 projetos sociais, contribuiu para a distribuição de R$ 4,5 milhões em recursos e impactou mais de 19 mil pessoas, segundo a socialtech.

A nova versão da plataforma foi lançada em 2025 em parceria com a Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e a Universidade de Lancaster, no Reino Unido.

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