Recife é escolhida como cidade-piloto para novo projeto da Fundação Ellen MacArthur

Uma parceria inovadora, anunciada hoje (1° de julho), coloca o Recife no centro do combate aos resíduos e à poluição plástica no Brasil. A Fundação Ellen MacArthur está firmando uma parceria com a Prefeitura do Recife, apoiada pela Clean Rivers e membros da Rede de Empresas da Fundação, incluindo Mars Inc., Nestlé, PepsiCo e Unilever, para explorar uma nova abordagem ao desenvolvimento de sistemas de coleta e reciclagem de embalagens — uma que possa apoiar a construção de políticas públicas nacionais e se tornar um modelo para cidades semelhantes. 

Em evento de lançamento no Recife, em 1° de julho, o Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Brasil e a Prefeitura do Recife assinaram acordos formais com a Fundação em apoio ao projeto. Nos próximos seis meses, a Fundação e a cidade do Recife trabalharão com os atores locais para elaborar um plano detalhado para a cidade. A ambição é mobilizar cerca de R$ 300 milhões em investimentos plurianuais e iniciar as atividades no Recife já em 2027.

A parceria se baseia nas conclusões apresentadas no relatório Fechando o Ciclo: Transformando os sistemas de resíduos urbanos e protegendo os rios do Brasil, publicado hoje pela Fundação e Clean Rivers, com base em informações de mais de 80 organizações, incluindo formuladores de políticas públicas, representantes de catadores, empresas, acadêmicos, ONGs e financiadores.

Luisa Santiago, Diretora para a América Latina da Fundação Ellen MacArthur, afirma: “O Brasil tem os ingredientes para transformar a forma como gerencia a coleta e a reciclagem, incluindo bases políticas sólidas, vontade política e uma rede sofisticada de quase um milhão de catadores, que são o motor do sistema de reciclagem do país. A lacuna de infraestrutura é uma barreira sistêmica central para a construção de uma economia circular para embalagens, ao lado da inovação em materiais e dos sistemas de reutilização. Estamos animados para trabalhar com o Recife e começar um novo modelo de colaboração entre cidades e empresas para fechar essa lacuna, com a esperança de que cidades e formuladores de políticas públicas em todo o Brasil possam aproveitar que aprendermos aqui”.

Deborah Backus, CEO da Clean Rivers, afirma: “A cada ano, milhões de toneladas de resíduos chegam aos cursos d’água e aos oceanos do planeta. O fortalecimento dos sistemas de gestão de resíduos reduz esse vazamento, protegendo os ecossistemas de água doce e as comunidades que deles dependem. Recife é o lugar certo para iniciarmos nosso trabalho, por ser uma cidade definida por sua vasta rede de cursos d’água que deságuam no Atlântico Sul. Esta parceria é única enquanto esforço multiparticipante para enfrentar o vazamento e a poluição por resíduos. Por meio da aplicação de recursos filantrópicos, buscamos atrair e mobilizar os investimentos mais amplos necessários para construir este modelo no Recife e criar um modelo para cidades no Brasil e além.”

Jean-Luc Negrier, Head de Sustentabilidade de Embalagens na Nestlé acrescenta: “Aprimorar a coleta e reciclagem de plásticos é uma das prioridades da Nestlé e nós estamos contentes em trabalhar junto com a Fundação Ellen MacArthur para desenvolver uma base comum e uma visão compartilhada para a transformação desse sistema no Brasil. Ele oferece uma oportunidade valiosa de testar e aprender a partir de um modelo local que poderia informar abordagens para a circularidade de embalagens em outras geografias. Vemos grande valor em trabalhar junto com nossos colegas de indústria e demais atores para construir um aprendizado compartilhado, demonstrar soluções escaláveis e apoiar a mudança sistêmica.”

O Recife foi escolhido como potencial ponto de partida para esse projeto porque seus desafios e suas bases refletem os de muitas outras cidades no Brasil. A ambição é construir um modelo que possa ajudar a formular políticas públicas nacionais e demonstrar como a coleta e a reciclagem podem funcionar de forma eficiente e equitativa em escala nas cidades brasileiras até 2040. 

Com 1,6 milhão de habitantes e uma rede de rios, pontes e cursos d’água, o Recife pode ter benefícios visíveis. Embora a cidade tenha um histórico de avanços — com crescimento de 16,6% na reciclagem de plásticos em 2024, mais que o dobro da média nacional — desafios significativos persistem. 

Apenas 1% dos domicílios no Recife têm acesso à coleta seletiva formal. Resolver isso em escala exige uma abordagem fundamentalmente nova para o financiamento sustentável vindo de um amplo grupo de atores interessados.

Victor Marques, prefeito de Recife, avalia que “o Recife se destacou nos últimos anos no fortalecimento de políticas voltadas à gestão de resíduos sólidos, seja na coleta, seja na destinação, como também, e especialmente, na promoção de assistência, qualificação e apoio aos trabalhadores e trabalhadoras que atuam dentro dessa cadeia. Esse projeto em conjunto com a Fundação Ellen MacArthur vai nos ajudar a avançar ainda mais nesse caminho, não apenas na busca por uma cidade mais limpa e sustentável, mas ainda além, na dimensão humana e do desenvolvimento social. Essa é uma parceria que promete grandes frutos para a população como um todo, e principalmente para aqueles que mais precisam”.

O Brasil, que detém 12% da água doce do planeta, é um dos cinco maiores geradores de resíduos sólidos urbanos do mundo. Apesar de a coleta cobrir pelo menos 92,4% da população, mais de um quarto dos resíduos sólidos urbanos ainda acaba sendo descartado de forma inadequada. 

Com isso, estima-se que 3,5 milhões de toneladas de plástico acabem em  bueiros, rios e nos ecossistemas dos quais milhões de pessoas dependem.

O relatório Fechando o Ciclo mostra que um sistema de resíduos urbanos mais eficiente poderia recuperar R$ 14 bilhões em valor de material reciclável, que atualmente fica nos aterros. O relatório também destaca que cerca de 9.300 empregos poderiam ser gerados nas cadeias de coleta, triagem e processamento de materiais. As cadeias produtivas da reciclagem de plásticos poderiam gerar mais 64.000 postos de trabalho até 2030. 

Os 800 mil catadores do Brasil recuperam até 90% de todos os materiais recicláveis do país, mas a maioria trabalha sem remuneração justa ou condições seguras. O relatório também pede o reconhecimento formal dos catadores, a remuneração pelos serviços que prestam — para além dos materiais que coletam — e um papel formal na forma como as cidades gerenciam a coleta e a reciclagem, com base em um princípio já previsto na política nacional.

Agenda 2030 para Plásticos para Empresas, da Fundação Ellen MacArthur, identificou o desenvolvimento de infraestrutura de coleta e reciclagem como uma barreira sistêmica central para o escalonamento de uma economia circular.

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