Startup brasileira que troca dados de motoristas por gasolina já vale R$ 180 milhões

Foto: Reprodução

Estar presente em quase todos os quilômetros rodados das cidades brasileiras e transformar essa informação em dinheiro e impacto ambiental mensurável é a ambição da Mova Protocol. A plataforma de dados de mobilidade acaba de atualizar seu valuation (avaliação de mercado) para R$ 180 milhões após receber um aporte seed de US$ 3 milhões.

A conta que sustenta a avaliação de R$ 180 milhões foi feita por fluxo de caixa descontado, com projeções de receita anual entre R$ 240 milhões e R$ 270 milhões em até cinco anos.

Como funciona a plataforma

A Mova é um aplicativo gratuito que constrói uma infraestrutura de dados baseada no uso real de veículos urbanos. O app registra quilometragem e comportamento de direção pelo celular, valida as informações e converte esses dados em ativos digitais verificáveis.

Diferentemente do Waze ou Google Maps, que mostram o caminho a ser traçado pelo usuário, a Mova acompanha o trajeto em troca de pontos. Esses pontos futuramente serão trocados por recompensas como desconto em combustível e recarga para carros elétricos.

“Os aplicativos só cobram taxas, então qualquer dinheiro a mais que entra para o motorista de app é lucro”, afirma Antônio Farias, diretor de produtos da Mova. Em breve, a empresa planeja lançar relatórios para o consumidor final com dados como tipo de condução, nível de trânsito enfrentado e quanto gastou em gasolina.

Modelo de negócio voltado para B2B

A ideia é que, a médio e longo prazo, os mesmos dados embasam relatórios ambientais e emissão de créditos de carbono lastreados em operação real, não em estimativas genéricas. É aí que está o verdadeiro modelo de receita: na venda de relatórios e pesquisa para os segmentos B2B (empresas) e B2G (governos).

Ao usuário final, toda essa engrenagem permanece invisível. Ele só vê o app, os pontos acumulados e, em breve, um marketplace automotivo. Hoje, a empresa tem pouco mais de 25 mil usuários cadastrados e uma meta ambiciosa de cadastrar 1 milhão de motoristas até o fim do segundo trimestre.

Pressão regulatória impulsiona mercado

A expansão da Mova acontece em paralelo a uma mudança regulatória importante no Brasil. A partir de 2026, companhias abertas, securitizadoras e fundos de investimento terão de reportar informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, seguindo a Resolução 193/2023 da CVM, baseada no padrão internacional do ISSB (conselho de padrões de sustentabilidade).

Na prática, isso deve ampliar a demanda por dados auditáveis, rastreáveis e vinculados ao que de fato acontece nas ruas, exatamente o tipo de informação que a Mova promete entregar. Hoje, porém, esses dados continuam espalhados em silos: montadoras, locadoras, apps de transporte, empresas de logística e gestores de frotas produzem informações em formatos distintos, sem padronização.

A tese da empresa é que a combinação de pressão regulatória, crise climática e metas de descarbonização abre espaço para infraestruturas neutras de dados que consolida e qualificam esses registros, especialmente para organizações pressionadas por relatórios de ESG.

Proposta de valor para motoristas e empresas

Pelo lado do motorista, a proposta é simples: o usuário baixa o app, autoriza a coleta de dados de deslocamento e passa a acumular pontos conforme dirige. No futuro, esses pontos podem ser trocados por benefícios no marketplace automotivo, como serviços de manutenção, seguros, limpeza, acessórios e recarga, e, mais para frente, até convertidos em criptomoedas.

Do lado corporativo, os dados alimentam relatórios de eficiência operacional, avaliação de risco e emissões, oferecendo insumos para seguradoras, empresas com frotas e governos que precisam de informação mais precisa sobre mobilidade urbana.

Projeções financeiras

Com o atual desenho de negócio, a Mova projeta receita anual entre R$ 21 milhões e R$ 24 milhões em uma fase inicial de escala, podendo chegar a R$ 240 milhões a R$ 270 milhões em até cinco anos, à medida que as verticais B2B e ambientais ganham peso.

O modelo contempla tanto motoristas de aplicativos de deslocamento urbano, como Uber e 99, quanto autônomos que trabalham com entregas para empresas como Mercado Livre e Amazon.

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