O plano original era simples: produzir proteínas alternativas à base de fungos para a indústria alimentícia e restaurantes brasileiros. No cardápio, um análogo de peito de frango e uma versão desidratada para ser incorporada em snacks. Mas sem autorização da Anvisa para comercialização no Brasil, a startup paranaense Typcal decidiu mudar o destino do produto antes mesmo de estrear nas prateleiras. O mercado escolhido foi a Europa, onde a regulação para esse tipo de ingrediente é mais madura e o consumidor mais receptivo.
Pioneira no segmento na América Latina, a empresa hoje tem aval regulatório para vender à União Europeia, ao México e à China. Os contratos são confidenciais, mas os clientes atuam em indústrias de carne, chocolate, snacks, biscoitos, panificação e laticínios. No primeiro ano de vendas, a projeção é faturar R$ 5 milhões.
Do micélio ao ingrediente
A base do produto da Typcal é a micoproteína, obtida por meio da fermentação de fungos, mais especificamente do micélio, conjunto de filamentos microscópicos que formam a estrutura desses organismos. Diferente das proteínas vegetais tradicionais, como soja e ervilha, o fungo entrega proteína e fibra em um único ingrediente, sem depender de múltiplas adições para atingir o sabor e a textura desejados.
A fermentação ocorre em uma fábrica em Curitiba, onde o fungo é alimentado com resíduos da produção de cerveja da Ambev. Em 24 horas, o processo resulta em uma biomassa pronta para a indústria de alimentos. Com a expansão da planta no fim do ano passado, a capacidade de produção chegou a 5 toneladas por mês, o que permitiu reduzir o preço do quilo do ingrediente de R$ 120 para R$ 50.
A demanda mais expressiva vem dos europeus, onde a adesão a dietas plant-based cresce não apenas por questões ambientais ou de saúde, mas também pelo custo. “Para eles, é mais barato consumir proteína vegetal do que proteína animal”, explica Paulo Ibri, CEO e cofundador da startup.
De 100 Foods a Typcal
A empresa nasceu em 2019 com o nome de 100 Foods, dentro do movimento de alimentos à base de plantas. Em 2021, insatisfeito com a qualidade e a sustentabilidade financeira do mercado plant-based tradicional, Ibri decidiu pivotar o negócio e apostar no micélio. No ano seguinte, Eduardo Sydney, hoje diretor de tecnologia e sócio da Typcal, se juntou à empresa para desenvolver a tecnologia atual. Sydney havia fundado anteriormente uma startup voltada à aplicação de micélio em materiais de construção.
“Já tínhamos investidores da iniciativa anterior e apresentei a eles a proposta de pivotar completamente o negócio, começar do zero e focar em micélio. Foi quando um desses investidores me apresentou ao Eduardo, hoje nosso CTO”, conta o CEO.
Desde 2022, quando foi criada com o atual foco, a Typcal captou R$ 10 milhões. Entre os investidores estão Bernardinho e seu filho Bruninho, do vôlei brasileiro, além de redes como Anjos do Sul e Anjos do Brasil e grupos ligados ao ecossistema da Universidade de São Paulo, como ECA Angels e FEA Angels. No próximo ano, o plano é realizar uma rodada Série A para levantar entre R$ 15 milhões e R$ 20 milhões.
Híbridos e o fim da catequese vegana
O ingrediente da Typcal pode ser usado tanto em produtos 100% plant-based quanto nos chamados híbridos, tendência crescente no setor que combina proteína animal e micélio no mesmo produto. “A pessoa não precisa cortar a carne totalmente, mas pode reduzir. Por exemplo, podemos oferecer um hambúrguer metade carne de patinho e metade micélio”, explica Ibri.
O posicionamento da empresa reflete uma leitura crítica sobre os rumos do mercado plant-based. “O plant-based acabou virando mais do mesmo: produtos ruins nutricionalmente, sem diferencial, e marcas queimando dinheiro. Não à toa, muitas já saíram do mercado”, avalia o CEO. Para a Typcal, a aposta está em oferecer versões melhores dos produtos que os consumidores já consomem, sem tentar convertê-los a um estilo de vida específico.
Expansão internacional e o caminho de volta ao Brasil
Com o investimento da aceleradora belga Biotope, que entrou no negócio em setembro do ano passado e aportou R$ 5 milhões para a ampliação da fábrica, a Typcal abriu uma filial na Bélgica para desenvolver novas variedades de ingredientes. O governo local oferece ainda um incentivo para pesquisa tecnológica: se uma patente for gerada no país, não há cobrança de imposto sobre ela.
No Brasil, Ibri ainda aguarda a aprovação da Anvisa para começar a comercializar o produto localmente. Embora o fungo utilizado seja considerado seguro, o processo de fermentação precisa passar por análises do regulador por se tratar de um alimento novo no país. Aprovada essa etapa, a startup que nasceu para o mercado brasileiro e precisou ir buscar clientes lá fora poderá, enfim, ocupar as prateleiras de casa.
