Uma nova tecnologia brasileira pode revolucionar a forma como a indústria de óleo e gás combate um de seus maiores desafios: a corrosão em plataformas marítimas. A startup de biotecnologia Microbiotec, em parceria com a Petrobras, iniciou a produção dos primeiros lotes de um produto biológico baseado em fagos — vírus naturais que atacam bactérias para conter a chamada corrosão microbiológica, comum em ambientes offshore.
Tradicionalmente, esse tipo de corrosão é combatido com produtos químicos agressivos, os chamados biocidas. Mas os fagos prometem fazer o mesmo trabalho de forma mais eficiente, com menos aplicações, menor risco ambiental e redução de custos operacionais, uma vez que alcança níveis superiores de eficiência com uma necessidade quase que duas vezes menor de aplicações. A expectativa é que o uso da tecnologia represente também um avanço na agenda ESG da estatal, ao substituir insumos químicos por uma alternativa biológica e sustentável.
O diretor de operações da Microbiotec, Sérgio Kuriyama, explica que os equipamentos instalados no mar sofrem um processo de corrosão induzido por micro-organismos (biocorrosão). São consórcios de bactérias que se instalam em estruturas das plataformas, como dutos, tanques, separadores de óleo e água e em tudo o que está em contato com a água do mar ou a água produzida associada ao petróleo. Estes seres produzem o gás sulfídrico (H2S), um gás altamente explosivo e tóxico, que corrói as estruturas metálicas.
“Os estudos conduzidos até agora sugerem que a frequência de aplicação de um coquetel de fagos seja bem mais espaçada que dos biocidas, isso porque os fagos tendem a persistir por mais tempo. Sendo assim, espera-se que uma das principais etapas de validação em campo seja demonstrar que uma menor frequência de aplicação dos fagos, consiga controlar adequadamente a atividade microbiana. Isso poderá refletir em uma economia operacional significativa nas operações offshore”, afirma.
A projeção da Microbiotec é de que a demanda por este tipo de produto vai crescer a partir do surgimento dos primeiros resultados práticos positivos. “Obviamente, os testes em campo é que vão dar a dimensão da demanda de mercado, mas nosso planejamento estratégico trabalha com a possibilidade real de termos que fazer investimentos robustos nos próximos cinco anos na criação de uma planta industrial de produção de fagos inédita na América Latina, visando atender à demanda do segmento de óleo e gás”, afirma.
O gerente de Tecnologias para Materiais e Corrosão, Agildo Moreira, do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento da Petrobras (CENPES), explica que “a substituição gradual dos produtos químicos biocidas pelos ‘fagos’ é uma iniciativa que está alinhada ao planejamento estratégico da empresa, que prevê a busca constante pela inovação e a eficiência em soluções que respeitem e contribuam cada vez mais para a proteção ao trabalhador e ao meio ambiente”.
A Petrobras trabalhou nas etapas iniciais do projeto de pesquisa aplicada com os bacteriófagos em parceria com a Universidade Federal de Viçosa e agora, junto com a Microbiotec, dará início à produção de lotes piloto de milhares de litros. Todo este desenvolvimento contou com financiamento robusto por parte da Petrobras e o avanço da iniciativa pretende comprovar, na prática, os resultados inovadores encontrados nos testes laboratoriais.
A Microbiotec é uma spin-off da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Atualmente, a startup é controlada majoritariamente pela Investbraz Participações LTDA. A Microbiotec busca a industrialização e comercialização dos produtos à base de bacteriófagos para diferentes aplicações por meio de parceiros industriais líderes de seus segmentos.
Os projetos desenvolvidos pela Microbiotec contam com o apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), que suporta os estudos através de uma unidade credenciada que é o Instituto Senai de Inovação em Química Verde, que, por sua vez opera no ambiente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN).
A empresa inaugurou em março, sua planta piloto, também na cidade de Viçosa (MG), com um investimento total de aproximadamente R$10 milhões. O local possui uma área construída de 300 m², com quatro laboratórios de microbiologia, um laboratório de biologia molecular e uma área de produção piloto com um reator de 200 litros e dois biorreatores de 2 mil litros, que permitem a produção de lotes pilotos de até 2 mil litros, com estimativa de produzir aproximadamente 20 mil litros por mês.
Para o Gerente de Pesquisa Aplicada da Firjan SENAI, Antônio Fidalgo, a chegada da etapa de aplicação prática do coquetel de fagos desenvolvido pela Microbiotec representa um marco para o ecossistema de pesquisa ligado à biotecnologia no país. “O projeto demonstra a capacidade dos cientistas e pesquisadores nacionais de encontrar soluções ambientalmente responsáveis, eficazes e econômicas para resolver problemas reais em larga escala. Estamos empolgados para comprovar os benefícios trazidos pelo produto e, a partir daí, trabalharmos juntos em sua expansão para várias outras aplicações”, conclui.