Fundada por três ex-banqueiros frustrados com ferramentas de décadas atrás, a Rogo Technologies acaba de alcançar um valuation de US$ 2 bilhões em sua mais recente rodada de captação — um salto expressivo frente aos US$ 750 milhões registrados apenas três meses antes. A série D de US$ 160 milhões foi liderada pela Kleiner Perkins, com participação de investidores já presentes no capital da empresa, como Sequoia Capital, Thrive Capital, Khosla Ventures e o braço de growth equity do JPMorgan Chase.
A ideia surgiu no final de 2021, em um apartamento pequeno em Manhattan, onde Gabriel Stengel e John Willett passavam as madrugadas desenvolvendo a empresa enquanto colegas de quarto trabalhavam até tarde em planilhas e apresentações de slides para grandes bancos. Stengel havia deixado a Lazard; Willett, o JPMorgan. Ambos formados em ciência da computação por Princeton, os dois se uniram ao programador Tumas Rackaitis para construir o que descrevem como uma alternativa moderna às ferramentas que tornaram a vida dos analistas juniores de Wall Street famosa por ser exaustiva. “Grande parte do trabalho analítico é feita por um jovem de 21 anos em ferramentas de 40 anos atrás, às 2 da manhã“, disse Stengel, de 27 anos.
A plataforma da Rogo é capaz de criar apresentações de slides, projetar reestruturações corporativas complexas e produzir pesquisas que podem levar dezenas de horas para um analista humano concluir manualmente. O agente de inteligência artificial da empresa, batizado de Felix — em homenagem ao lendário banqueiro da Lazard Felix Rohatyn, que ajudou a salvar Nova York do colapso financeiro nos anos 1970 — pode alternar entre diferentes modelos de IA, incluindo o Claude, da Anthropic, o ChatGPT, da OpenAI e o Gemini, da Alphabet. A estratégia permite que os clientes não fiquem dependentes de um único provedor em um setor ainda indefinido sobre qual modelo dominará.
A empresa já conta com mais de 35.000 usuários e mais de 250 clientes institucionais, entre eles Lazard, JPMorgan, Moelis, Bank of America, Wells Fargo e o fundo soberano de Cingapura GIC, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. Sua equipe é dividida de forma equilibrada entre engenheiros e ex-profissionais de finanças — chamados internamente de “forward deployed bankers” — que em muitos casos já trabalharam nas mesmas instituições que hoje assessoram, o que os ajuda a extrair o máximo da ferramenta para cada cliente.
O crescimento da Rogo, ao lado de concorrentes como a Hebbia, tem gerado ansiedade nos escalões mais baixos de Wall Street sobre o risco de as máquinas substituírem analistas juniores. Os fundadores reconhecem a preocupação, mas defendem que o efeito será o oposto: ao eliminar o trabalho mecânico e repetitivo, a tecnologia permitiria que jovens banqueiros assumissem funções mais estratégicas logo no início da carreira. “Haverá mais coisas para os humanos fazerem, mais coisas para ampliar seu julgamento e usar sua ambição“, disse Stengel. Rahul Rekhi, que entrou para a empresa como presidente após passagens pelo Tesouro americano e pela Lazard, reforça o argumento histórico: mesmo com o surgimento do Excel e de grandes provedores de dados, os bancos de investimento só cresceram.
Nem todos estão convencidos, no entanto. Céticos entre os entusiastas de IA questionam se a Rogo não seria uma camada intermediária desnecessária, já que profissionais de finanças poderiam usar grandes modelos de IA diretamente — e as próprias empresas de IA têm desenvolvido produtos voltados ao setor financeiro. Os fundadores respondem com o que consideram seus diferenciais: a capacidade de integrar múltiplas fontes de dados com citações auditáveis e rastreáveis, e um time especializado em finanças capaz de oferecer personalização que laboratórios de IA generalistas não conseguem replicar.
Com escritório aberto em Londres em janeiro e contratações em andamento em Singapura, Japão e Austrália, a Rogo mira a expansão global e ambiciona transformar a plataforma em infraestrutura financeira — não apenas uma ferramenta de produtividade. A empresa, que espera ter cerca de 300 funcionários até o fim do ano, também aposta que o software poderá democratizar o acesso às altas finanças, permitindo que governos com poucos recursos e organizações menores realizem análises complexas sem pagar as altas taxas cobradas pelos grandes bancos. “A Rogo é melhor do que qualquer coisa que alguém tenha sido capaz de construir internamente”, disse Mamoon Hamid, da Kleiner Perkins. “Espero que ela mude a cultura do setor.”
*Com informações da © 2026 Bloomberg L.P.









