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Home Agronegócio

Superávit global de açúcar encolhe com corte na safra da Índia e mudança no mix no Brasil

João Pedro Camargo Corenciuc por João Pedro Camargo Corenciuc
11/03/2026
em Agronegócio
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A oferta global de açúcar segue superior à demanda, mas com margem cada vez menor. Novas revisões nas estimativas de produção reduziram significativamente o superávit mundial da commodity na temporada 2025/26 (outubro a setembro), que agora deve ficar abaixo de 1 milhão de toneladas. O ajuste reflete principalmente o corte nas projeções da safra indiana e mudanças no direcionamento da produção no Brasil, maior exportador global do produto.

De acordo com estimativas da StoneX, empresa global de serviços financeiros, o saldo global de açúcar foi revisado de 2,9 milhões de toneladas para cerca de 870 mil toneladas no ciclo atual. O principal ajuste veio da Índia, cuja safra deve encerrar mais cedo do que o esperado, com impactos relevantes sobre a oferta mundial.

A produção indiana foi reduzida de 32,3 milhões para 29,7 milhões de toneladas, refletindo uma safra mais curta no estado de Maharashtra e produtividade abaixo do esperado em Uttar Pradesh. Mesmo assim, o volume ainda representa crescimento anual de cerca de 14%.

Segundo o analista de Inteligência de Mercado da StoneX Marcelo Di Bonifácio Filho, o mercado global passa por um momento de ajustes na oferta, mas ainda sem ruptura no equilíbrio entre produção e consumo.

“Apesar dos cortes recentes nas estimativas de produção de países importantes como Índia e Brasil, o mercado internacional ainda trabalha com um pequeno superávit. Isso tem limitado movimentos de alta mais consistentes nos preços, principalmente diante de sinais de demanda global mais fraca”, afirma.

Outro fator que contribui para manter o mercado abastecido é o desempenho de algumas regiões produtoras. A safra europeia de beterraba, por exemplo, superou as expectativas, com produção cerca de 2 milhões de toneladas acima do estimado anteriormente, resultado de melhor produtividade tanto na União Europeia quanto na Ucrânia.

Na América do Norte, a safra mexicana também apresentou revisão positiva. A produção de açúcar no país foi elevada de 5,1 milhões para 5,4 milhões de toneladas, impulsionada por ganhos de produtividade nos canaviais.

Mesmo com ajustes nas previsões de oferta, o comércio internacional de açúcar continua marcado por sinais de excesso de produto. Importações mais lentas em grandes mercados consumidores e estoques elevados contribuem para a manutenção de preços internacionais em níveis considerados baixos.

“Hoje o mercado vive uma combinação de oferta ainda relativamente confortável e demanda menos dinâmica. Esse contexto ajuda a explicar por que as cotações seguem próximas da faixa de 14 centavos de dólar por libra-peso no mercado internacional”, explica Di Bonifácio.

Ao mesmo tempo, fatores externos podem influenciar a trajetória das cotações. A alta recente do petróleo, por exemplo, pode dar algum suporte aos preços do açúcar ao estimular a produção de etanol em países produtores.

No Brasil, maior produtor e exportador global da commodity, as projeções indicam mudanças na estratégia de produção das usinas, com maior direcionamento da cana para o etanol.

Para a safra 2026/27 do Centro-Sul, a estimativa aponta moagem de 620,5 milhões de toneladas de cana, com expectativa de leve aumento na área colhida e recuperação parcial da produtividade.

Apesar do avanço na moagem, o mix açucareiro foi revisado para 48,7%, abaixo dos 49,3% estimados anteriormente, refletindo a menor atratividade do açúcar frente ao etanol. Com isso, a produção de açúcar deve ficar próxima de 40 milhões de toneladas, cerca de 0,7 milhão de toneladas abaixo da projeção anterior.

Para o analista de Inteligência de Mercado da StoneX, Rafael Borges, a relação entre preços do açúcar e do etanol tem sido determinante para o direcionamento da produção.

“Com o açúcar menos valorizado no mercado internacional, muitas usinas tendem a priorizar o etanol no início da safra. Esse movimento reduz o mix açucareiro e acaba limitando o crescimento da oferta de açúcar no Brasil”, realça.

Mesmo assim, o país deve continuar exercendo papel central no equilíbrio global da commodity. O Centro-Sul segue como a principal região produtora do mundo, e qualquer mudança no mix ou na produtividade agrícola pode alterar rapidamente o balanço internacional de oferta e demanda.

A atual safra 2025/26 no Centro-Sul, por exemplo, deve encerrar com produção próxima de 40,4 milhões de toneladas de açúcar, com mix estimado em cerca de 50,5% ao final do ciclo.

No mercado de biocombustíveis, por outro lado, a expectativa é de forte crescimento. A produção total de etanol no Centro-Sul pode alcançar 37,2 bilhões de litros em 2026/27, avanço de 10,2% na comparação anual e novo recorde histórico, impulsionado pela expansão do etanol de milho.

Segundo Borges, essa expansão do biocombustível também reforça a tendência de maior flexibilidade industrial no setor sucroenergético brasileiro. “O aumento da produção de etanol, especialmente de milho, amplia a capacidade do setor de reagir rapidamente aos sinais de preço entre açúcar e biocombustível”, destaca.

Diante desse cenário, o mercado internacional continuará atento às decisões produtivas do Brasil ao longo dos próximos meses, já que o desempenho da safra brasileira tende a ser decisivo para a trajetória do saldo global de açúcar.

Tags: AgronegócioBrasilíndiaInvestimentosMercadoNegócios
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