Marca nascida em Paraty fortalece bordadeiras brasileiras e transforma tradição em valor na economia criativa

Demonstração prática de bordados. Foto: Juliana Rangel

A marca Thayná Caiçara, criada pela paratiense Thayná Soares, vem consolidando um movimento que reposiciona o bordado brasileiro no cenário contemporâneo. Ao estruturar uma rede de artesãs com remuneração justa, respeito ao tempo do trabalho manual e inserção no mercado internacional, o projeto transforma tradição em oportunidade concreta de renda e reconhecimento profissional.

O artesanato brasileiro movimenta cerca de R$ 50 bilhões por ano, representa aproximadamente 3% do Produto Interno Bruto e emprega 8,5 milhões de pessoas, segundo dados do Sebrae. Mesmo com essa relevância econômica, grande parte das artesãs ainda atua de forma informal e com baixa valorização financeira.

É nesse contexto que a Thayná Caiçara atua, conectando bordadeiras brasileiras a uma cadeia produtiva estruturada, com pagamento alinhado ao mercado e valorização autoral. O bordado passa a ser reconhecido como produção artística de alto valor agregado. “O bordado brasileiro sempre teve potência estética e cultural. O que estamos fazendo é garantir que ele também tenha reconhecimento econômico e profissional. Não é assistência, é valorização real do trabalho dessas mulheres”, afirma Thayná Soares.

A primeira bordadeira da marca

A trajetória da artesã Fernanda Silva Queiroz simboliza o início dessa rede. Ela foi a primeira bordadeira da Thayná Caiçara e ajudou a consolidar o modelo que hoje conecta artesãs brasileiras ao mercado internacional.

Nascida em Brasília, aprendeu a bordar aos 11 anos com vizinhas, enquanto a mãe trabalhava fora. Nos anos 1990, produzia tiras bordadas para panos de prato na Torre de TV da capital federal.

Mãe de três filhos, sendo o mais velho cego, encontrou no fazer manual a possibilidade de conciliar sustento e presença nos atendimentos de estimulação precoce. O bordado se tornou fonte de renda e autonomia.

Formada em Jornalismo, atuou como comunicadora, motorista e fotógrafa, sem abandonar pintura, desenho, costura e bordado. Ao se mudar para Paraty (RJ), aprofundou estudos e passou a bordar aves da Mata Atlântica em peças vendidas no Mercado das Artes.

Durante a pandemia, conheceu Thayná Soares e recebeu o convite para desenvolver aves brasileiras na técnica de pintura de agulha dentro do projeto da marca. A confiança depositada nela marcou o início da rede de bordadeiras que hoje integra o projeto.

Para assumir o desafio, dedicou-se intensamente à técnica. Hoje, aos 51 anos, vive exclusivamente do bordado, atende clientes no Brasil e na Europa e também se tornou professora. “Quando a gente recebe pelo nosso trabalho de forma justa, a vida muda. Eu deixei de ver o bordado como complemento e passei a enxergar como profissão. Isso transforma a nossa autoestima e a nossa casa”, afirma Fernanda Queiroz.

Paraty como polo de formação e valorização do bordado

Em Paraty, onde cultura e turismo estruturam a economia local, o fortalecimento do bordado também representa desenvolvimento regional.

Dentro do projeto da Thayná Caiçara, a formação de novas bordadeiras tornou-se eixo estratégico. Em parceria com a Casa da Cultura de Paraty, será realizada uma nova turma gratuita do curso Bordado em Pintura de Agulha.

As inscrições seguem até 08 de março de 2026, pelo site www.casadaculturaparaty.org

Serão 12 aulas, realizadas às terças e quintas-feiras, das 17h às 20h, com início em 17 de março de 2026, na Sala de Artes da Casa da Cultura de Paraty. As vagas são gratuitas e limitadas, destinadas a moradores de Paraty, maiores de 18 anos, com noções básicas de bordado. Ao final, haverá formatura e exposição coletiva das obras produzidas.

Valorização como modelo de negócio

Com trajetória internacional na moda e experiência em maisons europeias, Thayná estruturou um modelo no qual partes das peças são produzidas no exterior e enviadas ao Brasil para serem bordadas manualmente por artesãs de diferentes regiões.

Cada peça carrega horas de trabalho manual e identidade própria. A proposta é manter o bordado brasileiro no centro da criação, assegurando remuneração justa e reconhecimento profissional.

A história da Thayná Caiçara se entrelaça à trajetória pessoal de sua criadora. Nascida e criada em Paraty, Thayná Soares construiu sua formação profissional no campo social, atuando em Conselhos Municipais, na Secretaria de Segurança Pública e como conselheira tutelar. Formada em Serviço Social, com especialização em Neuropsicopedagogia, chegou à moda por caminhos não convencionais.

A marca existe há seis anos e, atualmente, possui vendas exclusivas no Hotel Du Cap-Eden-Roc, no sul da França, um dos endereços mais icônicos da hotelaria internacional. Na Europa, trabalhou com maisons como Hermès, Azzedine Alaïa e Armani, experiências que aprofundaram seu domínio técnico e sua visão sobre o luxo artesanal. Durante a pandemia, um projeto ligado ao bordado manual evoluiu de forma orgânica para a criação da marca, que hoje trabalha com produção limitada, peças exclusivas e forte valorização do trabalho artesanal brasileiro.

Ao fortalecer a formação em Paraty e consolidar a rede nacional de artesãs, a Thayná Caiçara demonstra que tradição e mercado podem caminhar juntos. Em um setor que já representa parcela significativa da economia do país, a valorização das bordadeiras brasileiras deixa de ser discurso e se traduz em renda, profissionalização e reconhecimento consistente dentro e fora do Brasil.

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