O TT Burger nasceu como uma hamburgueria artesanal no Rio de Janeiro, mas passou a operar cada vez mais como uma empresa de tecnologia aplicada ao food service. A rede criada por Thomas Troisgros e André Meisler transformou o delivery, antes tratado como uma frente secundária, em um dos principais motores de crescimento do negócio.
Hoje, cerca de 70% das vendas vêm das entregas em parte da operação. A empresa tem 20 unidades, quase 60 contratos de franquia assinados e projeta faturar R$ 100 milhões em 2026, alta de 30% sobre o ano anterior.
A mudança de rota veio depois de anos de resistência. Antes da pandemia, o delivery representava menos de 5% das vendas. A rede também evitava franquias por medo de perder controle sobre a qualidade. O fechamento dos restaurantes em 2020 obrigou o grupo a testar outro modelo: usar a mesma cozinha, equipe e base de insumos para operar marcas diferentes no digital.
“Passamos anos dizendo que nunca teria delivery e nunca faria franquia porque isso significava perder qualidade. A pandemia obrigou a gente a rever tudo”, afirma André Meisler, sócio do TT Burger.
Da loja no Arpoador a uma operação multimarcas
O TT Burger abriu sua primeira unidade em 2013, no Arpoador, dentro de uma antiga loja da Reserva. A proposta era criar um hambúrguer com identidade brasileira, combinando elementos como pão de batata-doce, picles de chuchu e ketchup de goiabada.
A estreia mostrou a força do produto. A expectativa inicial era vender 100 hambúrgueres no primeiro dia, mas foram 800. O sucesso ajudou a colocar a marca no mapa gastronômico do Rio, embora também tenha revelado um problema: a operação era muito dependente da experiência presencial e difícil de replicar em escala.
A pandemia mudou esse cenário. Com os salões fechados, o grupo lançou marcas digitais para usar melhor a estrutura que já tinha. A primeira foi a Três Gordos, focada em smash burgers. Depois vieram a Tom Ticken, de frango, e a Marola, de pescados.
Hoje, um mesmo franqueado pode operar até quatro marcas na mesma cozinha. O modelo aumenta o faturamento por metro quadrado e permite que o operador dilua custos fixos, um ponto importante em um setor pressionado por aluguel, mão de obra, taxas de aplicativos e promoções.
Mesmo com a expansão das marcas digitais, o TT Burger segue como principal bandeira do grupo. A marca original responde por cerca de 60% a 70% do faturamento total, enquanto as demais ajudam a completar a operação de delivery.
Tecnologia própria virou peça central da expansão
O salto do TT Burger não se limita à criação de novas marcas. Desde 2016, a empresa mantém uma área própria de tecnologia para desenvolver sistemas internos. A ideia era resolver dores específicas do food service que plataformas prontas não atendiam bem.
Um dos principais projetos é o Encante, sistema de CRM criado pela própria rede. A plataforma reúne informações como histórico de pedidos, preferências, frequência de consumo e reclamações dos clientes.
Esses dados são usados pelos chamados “encantadores”, funcionários que atuam nas lojas em uma função próxima à de garçom e anfitrião. Quando o cliente retorna, a equipe consegue visualizar informações sobre pedidos anteriores e adaptar o atendimento.
“Não é programa de pontos. É reconhecimento do cliente”, diz Meisler.
A responsável por construir essa base tecnológica foi Mayli Souza, engenheira que entrou no TT Burger em 2016. Em um momento em que o food service ainda era pouco digitalizado, a empresa começou a desenvolver soluções próprias para integrar loja física, delivery, cozinha e relacionamento com cliente.
Durante a pandemia, Mayli deixou a área de tecnologia para assumir a operação em meio à explosão das entregas. Há cerca de um ano, passou a ocupar o cargo de CEO do Grupo TT.
Na prática, o hambúrguer vai para a chapa quando há maior chance de sair quente e dentro do prazo. A mudança reduz atrasos, melhora a experiência do cliente e evita que o pedido fique parado esperando retirada.
“Todo mundo organizava pedido por ordem de entrada. A gente entendeu que precisava organizar pela chegada do motoboy”, afirma Mayli.
“Pode até ter uma marca que venda menos. O importante é que o conjunto viabilize economicamente a operação”, afirma Meisler.
Segundo a empresa, unidades menores faturam cerca de R$ 500 mil por mês, enquanto algumas lojas próprias passam de R$ 1 milhão mensais.









