A Vesper, venture builder brasileira focada em biotecnologia, abriu uma rodada de R$ 75 milhões para criar startups a partir de pesquisas acadêmicas. A empresa quer aproximar cientistas, capital, gestão e estratégia para desenvolver negócios nos setores de saúde e agrobiotecnologia.
O modelo se inspira em iniciativas internacionais como a Flagship Pioneering, fundo norte-americano conhecido por criar a Moderna, uma das fabricantes de vacinas contra a Covid-19. Em vez de investir apenas em empresas já existentes, a Vesper constrói companhias do zero junto com pesquisadores e se torna sócia desde o início.
Desde a fundação, em 2018, a holding avaliou mais de 4.500 projetos e selecionou oito empresas para o portfólio. Quatro atuam em saúde humana, três em agrobiotecnologia sustentável e uma em diagnósticos moleculares.
Do software à biotecnologia
A Vesper foi fundada por Gabriel Bottos, engenheiro de Florianópolis que também cofundou a Exact Sales, empresa de software de aceleração de vendas vendida à RD Station, da TOTVS, em 2023.
Gabriel e o irmão gêmeo passaram pelo Instituto Fraunhofer, na Alemanha, antes de voltarem ao Brasil e empreenderem no setor de tecnologia. A entrada na biotecnologia veio depois de uma experiência familiar.
Em 2019, a sobrinha de Gabriel, Helena, foi diagnosticada com um neuroblastoma em estágio 4, um tumor sólido quimiorresistente. Sem tratamento disponível no Brasil para o caso, a família conseguiu incluí-la em um estudo experimental na Espanha com um anticorpo. Hoje, Helena tem dez anos e está em remissão total.
“Foi literalmente um milagre. E, nesse processo todo, a gente começou a mergulhar nesse tema de biotecnologia. Primeiro, pela história pessoal, depois porque estamos no Brasil, um país continental com a maior biodiversidade do mundo e uma potência em agricultura, um país muito estratégico para estudos clínicos, porque você encontra todas as doenças em genéticas variadas. A gente tem grandes hospitais aqui no Brasil, a medicina brasileira é referência internacional. E no entanto a gente não tem grandes inovações sendo feitas na área de biotecnologia”, afirma Gabriel.
Pesquisa existe, mas empresa nem sempre nasce
A tese da Vesper parte de uma lacuna conhecida no ecossistema brasileiro de inovação. O país tem universidades, laboratórios, teses e pesquisadores reconhecidos, mas ainda enfrenta dificuldade para transformar conhecimento científico em empresas competitivas.
No caso da biotech, o desafio é maior do que em startups tradicionais. Projetos podem levar anos até a validação científica, exigem capital paciente, gestão regulatória, estratégia de propriedade intelectual, testes, equipe técnica e capacidade de conexão com investidores especializados.
Para Gabriel, o modelo convencional de aceleração não resolve esse tipo de problema.
“Não adianta chegar para um cientista, dar um curso de quatro meses em aceleradora e achar que está resolvido”, afirma.
A Vesper trabalha com um número restrito de empresas para acompanhar cada projeto de perto. A equipe participa da estruturação do negócio, da estratégia científica, da captação, da gestão e da conexão com parceiros.
Portfólio reúne saúde, agro e diagnóstico
Das oito empresas selecionadas pela Vesper, quatro atuam em saúde humana, com terapias para cânceres, doenças autoimunes, demências e condições ligadas ao envelhecimento.
Outras três companhias trabalham com agrobiotecnologia sustentável. A oitava é voltada a diagnósticos moleculares.
Entre as empresas de saúde, a Aptah Bio aparece como destaque do portfólio. A biotech trabalha com terapias de RNA, molécula ligada à síntese de proteínas nas células, voltadas ao tratamento de doenças relacionadas ao envelhecimento, como câncer e doenças neurodegenerativas.
Segundo a Vesper, a Aptah Bio tem o maior valuation do portfólio e plano de IPO no horizonte. O primeiro produto da empresa projeta US$ 7 bilhões em receita anual recorrente, conforme estimativa divulgada pela companhia.
Rodada já captou cerca de R$ 25 milhões
A Vesper quer levantar R$ 75 milhões até o fim de 2026. Até agora, já captou cerca de R$ 25 milhões.
A rodada tem participação de membros da família Lafer, do grupo Klabin, da Rise Ventures, fundo focado em investimentos de impacto, e da ACNext Ventures, veículo de executivos da Accenture.
Desde a fundação, o portfólio da Vesper já mobilizou mais de R$ 200 milhões entre capital privado e subvenção econômica. Dois terços desse volume vieram de fundos privados.









