Encerrado o período de avaliações de desempenho, muitos se sentem frustrados ao receberem o “feed back”. Entendem que entregaram os resultados orçados, mas a sua avalição está aquém das suas expectativas.
Crescemos acreditando em um conjunto de verdades, que terminaram por moldar as nossas crenças, e uma delas é que somos racionais. Por termos capacidade de raciocinar, assumimos automaticamente que o nosso comportamento, julgamento e escolhas são baseados na razão.
Eu, por exemplo, por décadas acreditei na premissa de que eu era uma pessoa racional, que as minhas decisões eram baseadas em um processo analítico lógico. E quando confrontava com pessoas que chegava, a conclusões diferentes, atribuía a discordância à sua deficiência intelectual.
Havia somente uma maneira de me fazer mudar de opinião: provando que a minha premissa estava errada. Uma outra forma de me fazer mudar de atitude, não de opinião, era através do peso da autoridade, o que acabava me gerando um grande desconforto. Era a soberba característica dos jovens que se julgam competentes.
Essa premissa da racionalidade foi sendo reforçada ao longo do curso de Economia, em especial pela teoria microeconômica, que se baseia no comportamento racional dos agentes econômicos, pilar básico sem o qual não seria possível prever a reação dos consumidores e dos ofertantes.
Um dos motivos que faz essa hipótese ser atraente, é que se todos agirem de modo racional, as coisas se tornam previsíveis, dando uma sensação de controle e segurança.
Foi somente nos anos mais recentes que percebi que estava totalmente equivocado, que estava longe de ser o modelo de racionalidade que eu me imaginava. Num processo inconsciente e ao mesmo tempo dinâmico, a racionalização era realizada depois que eu já havia feito a minha opção, servindo apenas para validá-la. As minhas escolhas eram determinadas, sem que eu tivesse consciência, por muitos outros fatores subjetivos.
Além do equívoco individual, dois problemas sérios decorrem desse processo no âmbito social e empresarial. A primeira é a inflexibilidade decorrente do ar de verdade científica dada a racionalidade com a qual revestimos as nossas decisões, reduzindo a possibilidade de outras visões e soluções.
Outra questão, é que por desconhecermos um vasto universo de elementos que interferem na definição das nossas premissas e que passam desapercebidos aos nossos olhos analíticos, não realizamos revisões críticas das nossas hipóteses, satisfazendo com a coerência e familiaridade das premissas e soluções, muitas vezes equivocadas pela incapacidade de lidar com o contraditório.
Um modo fácil de visualizar e entender essa questão é olharmos para os preconceitos que todos nós carregamos. Sim, e antes que você se ofenda, ela faz parte da nossa história evolutiva. Foi ela, o preconceito já estabelecido, que permitiu que o homem primitivo reagisse imediatamente diante de um animal perigoso, sem perda de tempo e evitando o risco de ser devorado, justamente porque ele já tinha noção do risco que aquele animal representava.
Para escaparmos dessa armadilha, o primeiro passo é admitirmos os nossos preconceitos e reduzirmos conscientemente o seu peso nos julgamentos a serem realizados. Ter preconceito faz parte, porém deixar ele determinar as suas escolhas, já é uma decisão de cada um.
Outros meios pelos quais somos influenciados são muito mais sutis, e, na sua maioria, sequer temos ideia da influência que exercem sobre nossas escolhas. São os chamados “vieses”.
O seu poder reside justamente no fato de não os percebermos, fazendo-nos acreditar que somos senhores da nossa mente e da superioridade do nosso processo analítico.
Conscientes das nossas limitações e dos vieses aos quais estamos sujeitos, podemos nos preparar de forma inteligente aos desafios e às ameaças que nos cercam, evitando reagir como o homem primitivo, de forma instintiva, apelando aos seus preconceitos diante do perigo.
Mas voltando ao tema da avaliação, o julgamento que outros fazem de nós não é racional. Igual a nós, inúmeros fatores subjetivos entram no processo de avaliação. Por exemplo, não podemos esquecer que a imagem que transmitimos impacta na avaliação. E ainda falando no tema, precisamos lembrar que muitas empresas utilizam o conceito da “curva forçada” o que torna ainda mais incerto o “match” entre a sua expectativa e a nota recebida.
Por fim, outro mito que precisamos desconstruir é o do julgamento justo. Como dito no obra do Kahneman, Sibony e Sunstein, “Onde há julgamento há ruído” ¹.
Em tempo, a leitura que me fez mudar a visão que eu tinha de mim mesmo, foi: “Rápido e Devagar – duas formas diferentes de pensar” do Daniel Kahneman.
.(1) Ruído – Daniel Kahneman; Olivieir Sibony; Cass R. Sunstein








