Esse é o nome de um livro escrito por Daniel Kahneman, Olivier Sibony e Cass R. Sunstein, cujo título dá o “spoiler” do conteúdo da obra. Sua conclusão é simples e direta: onde há julgamento, há muito mais ruído do que podemos imaginar.
Essa obra é fruto de reflexões teóricas alicerçadas por vasta pesquisa estatística, que descreve de forma explícita os desvios a que todos nós estamos sujeitos nos processos de julgamentos.
Começa por diferenciar “viés” do “ruído”. O primeiro é um erro sistemático que pode ser mais facilmente identificado. É o caso, por exemplo, de decisões ou julgamentos feitos por pessoas claramente preconceituosas, cujos prejulgamentos impactarão diretamente nas suas decisões finais. Sempre que os elementos preconcebidos se fazem presentes, torna-se mais fácil identificar o padrão do erro. É o caso de uma analista sistematicamente otimista, que tende a superestimar o resultado projetado. O tamanho do viés é quanto, em média, o julgamento está afastado do objetivo.
No segundo caso, os ruídos são as variações indesejadas de julgamentos que deveriam ter os mesmos conclusões. São os casos de decisões tomadas por uma pessoa em relação a temas semelhantes, mas cujos resultados variaram conforme combinação de diferentes situações no momento da tomada da decisão.
É o que eles chamam de “ruído de ocasião”. Analisando centenas de penas aplicadas pelos mesmos juízes aos mesmos tipos de crime, comprovaram estatisticamente uma variação relevante nos julgamentos, em função do período do dia em que as decisões foram tomadas, do dia da semana em que foram proferidas ou seu estado nutricional.
As penas imputadas no primeiro período do dia eram mais brandas do que as aplicadas no final do período, quando já estavam mais cansados. No período anterior ao almoço ou então na segunda-feira, após a derrota de seu time no final de semana, suas decisões eram mais severas.
Refletindo sobre o nosso processo decisório, não é difícil reconhecer esse mesmo padrão de comportamento. Quando estamos cansados no final do dia, nossa atenção diminui e queremos nos livrar o mais rápido possível dos problemas, momento em que o ruído aparece.
Temos também, entre outros, o chamado “ruído de nível”. É a situação em revela diferença de comportamento médio entre os diversos avaliadores. Essa situação é vivida por muitos colaboradores, onde um líder é muito mais rigoroso na avaliação do que seus pares.
A grande dificuldade em combater o ruído começa por não o percebermos como um problema, ele é invisível, que passa despercebido, mas os impasses por ele gerados são concretos, afetando muitos aspectos da nossa vida, tais como: financeiro, diferentes ruídos influenciando nos momentos de decisão, afetando negativamente o clima organizacional, quando um colaborador se sente injustiçado por seu líder ser mais rigoroso, por exemplo.
As pesquisas por eles realizadas vão muito além do campo do judiciário, alcançando também o ambiente de saúde, onde comprovam o impacto do ruído nas variações dos diagnósticos e no resultado dos exames. Os médicos também estão sujeitos aos mesmos fatores que afetam os juízes como por exemplo, dia da semana, o período do dia ou seu estado físico.
No caso do viés, quando se sabe que determinado analista costuma ser otimista, você pode ajustar as previsões reduzindo-a em X%, conforme indicações das experiências anteriores.
Mas, no caso dos ruídos, os desvios são provocados por fatores psicológicos e não há um tratamento que os elimine, mas pode-se reduzir sua influência com a adoção de alguns processos de higienização como, por exemplo, avaliação 360º. As avaliações coletivas podem ajudar, mas somente se as mesmas forem realizadas de forma independente, sem qualquer troca de opiniões entre os participantes, até a entrega final do seu julgamento.
Segundo os autores, uma das possíveis soluções para a eliminação do ruído, seria a utilização da Inteligência Artificial no processo de julgamento, mas eles apontam que isso não elimina o viés e todos os problemas decorrentes, dado que IA não está imune aos vieses contidos nas fontes nas quais ele foi treinado.
Uma outra possibilidade seria criar estruturas rígidas de avalição com regras claramente definidas, não dando espaço para interpretações. Isso simplificaria o trabalho de julgamento e evitaria o ruído, mas esse engessamento não permitiria tratamento de novas questões “fora da caixinha” impedindo a adaptação às novas realidades e necessidades que surgirão.
Diante da constatação de que o ruído é onipresente em nossos julgamentos, se quisermos elevar o nosso nível de sucesso, teremos de ser mais realistas e humildes, aceitando que nossos julgamentos estão longe de ser imparciais e lógicos. Daí a necessidade e pedirmos ajuda para entendermos em quais armadilhas estamos presos, pois essa é uma missão quase impossível de realizarmos sozinho.
Por fim, uma dica prática: nunca tome uma decisão importante quando você estiver cansado, com sono ou com fome.








