Em um movimento histórico de normalização de sua política monetária, o Banco do Japão (BoJ) anunciou nesta terça-feira (16) um aumento na sua taxa de juros de curto prazo, elevando-a de 0,75% para 1% ao ano. A decisão leva o custo dos empréstimos na terceira maior economia do mundo ao patamar mais alto registrado desde 1995. O aperto monetário visa conter as pressões inflacionárias generalizadas e o avanço das expectativas de preços após o choque energético global disparado pela guerra no Irã.
A alta — a primeira promovida pela instituição desde dezembro do ano passado — alinha o BoJ à postura rigidamente restritiva adotada por outros grandes bancos centrais mundiais que combatem a inflação, a exemplo do Banco Central Europeu (BCE). A votação no comitê de política monetária terminou com o placar de 7 votos a 1.
O anúncio oficial ocorreu em um momento de transição na conjuntura geopolítica. Em coletiva de imprensa, o vice-presidente do Banco do Japão, Shinichi Uchida, classificou o recente acordo de paz assinado entre os Estados Unidos e o Irã como uma “medida bem-vinda”, mas ponderou que os efeitos secundários do conflito sobre a cadeia de preços japonesa ainda exigem forte vigilância das autoridades. Uchida conduziu os trabalhos em substituição ao presidente do BoJ, Kazuo Ueda, ausente por motivos de saúde.
De acordo com o comunicado oficial emitido pela autoridade monetária, o risco de uma recessão econômica aguda no Japão devido às tensões no Golfo Pérsico arrefeceu, em grande parte pela agilidade do país em mapear e obter fontes alternativas de abastecimento de energia nos últimos quatro meses. Contudo, o repasse de custos de produção pelas empresas locais para o preço final de uma ampla gama de produtos de consumo ocorre em um “ritmo relativamente rápido”, o que ameaça desancorar as projeções de longo prazo:
“Em comparação com a reunião anterior, o risco de uma deterioração acentuada da economia diminuiu. Por outro lado, os aumentos de preços estão se generalizando e há o risco de que a inflação subjacente se desvie para cima de nossa meta”, alertou Uchida.
A única voz discordante no comitê de formulação de políticas foi a do diretor Toichiro Asada, que ingressou no colegiado em abril como o primeiro membro indicado diretamente pela primeira-ministra Sanae Takaichi. No relatório de votos, Asada justificou sua dissidência por avaliar que os riscos de queda para a atividade econômica e o crescimento interno decorrentes das instabilidades no Oriente Médio ainda se sobrepunham aos riscos de aceleração inflacionária no curto prazo.
Além do ajuste na taxa básica de juros, o Banco do Japão promoveu alterações estruturais na condução de seus estímulos quantitativos:
- Compra de Títulos: O BoJ decidiu manter o ritmo de aquisição mensal de títulos do governo japonês (JGBs) no patamar de aproximadamente 2 trilhões de ienes (equivalente a US$ 12,5 bilhões).
- Transição de Programa: A instituição determinou a suspensão do programa de redução gradual das compras de títulos a partir de abril do próximo ano.
- Revisões Flexíveis: Foi descontinuada a prática de realizar uma revisão anual e rígida para o plano de compras. A partir de agora, o banco central informou que permanecerá pronto para ajustar a velocidade e o volume das intervenções de mercado de forma ágil em qualquer reunião regular de política monetária, caso as condições de liquidez exijam.









