Entidades empresariais do Brasil e dos Estados Unidos pressionam os dois governos por um acordo que evite a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Em carta enviada a autoridades dos dois países, representantes do setor privado defenderam uma solução negociada antes de quarta-feira (15), prazo previsto para a decisão americana.
O documento foi assinado pela Confederação Nacional da Indústria, a CNI, pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil, a Amcham, e pela US Chamber of Commerce. As organizações propõem ampliar a cooperação comercial em áreas como data centers, segurança energética, automóveis, medicamentos e minerais críticos.
Pelas estimativas da CNI, a medida pode atingir cerca de 4,2 mil produtos exportados pelo Brasil e afetar aproximadamente US$ 15 bilhões em vendas ao mercado americano.
As entidades argumentam que a negociação produziria resultados mais duradouros do que a imposição de novas tarifas e reduziria impactos sobre empresas, trabalhadores e consumidores dos dois países.
Carta propõe novas frentes comerciais
Além de pedir a suspensão da tarifa, o setor privado apresentou uma agenda para ampliar a relação econômica bilateral. Entre as propostas estão maior acesso a mercados ligados à energia e aos data centers, aproximação regulatória nos setores automotivo e farmacêutico, cooperação em minerais críticos e aceleração da análise de patentes.
O texto também pede apoio à manutenção de uma moratória da Organização Mundial do Comércio sobre a cobrança de tarifas em transmissões eletrônicas.
A carta foi direcionada aos ministros Mauro Vieira, das Relações Exteriores, e Márcio Elias Rosa, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Do lado americano, receberam o documento o secretário de Estado, Marco Rubio, e o representante comercial da Casa Branca, Jamieson Greer.
Em resposta, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que o governo segue empenhado no diálogo com os Estados Unidos e na defesa dos interesses brasileiros.
Empresas americanas também temem prejuízos
O governo brasileiro identificou 43 empresas e associações comerciais americanas contrárias à aplicação das tarifas sobre determinados produtos do país.
Parte dessas organizações argumenta que os itens brasileiros não possuem substitutos suficientes no mercado americano. A cobrança adicional, portanto, poderia aumentar os custos para consumidores e para indústrias dos Estados Unidos que dependem dessas mercadorias como matérias-primas.
As audiências públicas sobre a investigação comercial reuniram representantes de setores como café, arroz, açúcar, etanol de milho, ferro-gusa, madeira, papel, calçados, mel e rochas ornamentais.
A lista mostra que a discussão não envolve apenas exportadores brasileiros. Empresas americanas que compram produtos do país também podem enfrentar alta de custos, pressão sobre as margens e dificuldades para substituir fornecedores.
Comércio bilateral já perde espaço
Nos cinco primeiros meses de 2026, a participação dos Estados Unidos no comércio total do Brasil caiu para 11,2%, o menor nível já registrado, segundo a Amcham. As importações brasileiras de produtos americanos recuaram 11% no mesmo período.
Para Abrão Neto, presidente da entidade, novas tarifas podem reduzir ainda mais a presença comercial dos Estados Unidos no mercado brasileiro e abrir espaço para concorrentes internacionais.
O temor é que, além de diminuir as exportações brasileiras, a medida prejudique companhias americanas que vendem ao Brasil ou utilizam insumos produzidos no país.
Investigação cita Pix, redes sociais e etanol
A proposta de tarifa surgiu após uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR. O órgão concluiu que determinadas políticas brasileiras restringem ou oneram o comércio americano.
Entre os pontos mencionados estão o funcionamento do Pix, decisões judiciais relacionadas a redes sociais, acordos comerciais firmados pelo Brasil, barreiras ao etanol dos Estados Unidos, proteção da propriedade intelectual, desmatamento ilegal e combate à corrupção.
A medida ainda não entrou em vigor e depende da conclusão das consultas públicas e de outras etapas previstas na legislação americana.
Os Estados Unidos também elaboraram uma lista de possíveis exceções. Café, determinadas carnes, frutas, fertilizantes, medicamentos, aeronaves, peças e minerais estratégicos estão entre os produtos que podem escapar da cobrança.







