A Uber fechou um acordo para comprar a Delivery Hero por US$ 14,8 bilhões, em uma das maiores operações já realizadas no mercado global de entregas. A aquisição reúne o Uber Eats às marcas da companhia alemã, presentes em 99 países, e amplia a escala da empresa americana em regiões como Ásia, América Latina e Oriente Médio.
A oferta prevê o pagamento de € 41,50 por ação aos acionistas da Delivery Hero. O desembolso líquido da Uber deverá ficar em aproximadamente US$ 13,7 bilhões, já que a companhia vinha comprando ações da empresa alemã e acumulou uma participação próxima de 25%.
Juntas, as operações envolvidas no negócio movimentaram cerca de US$ 236 bilhões em pedidos durante 2025.
A conclusão está prevista para o segundo semestre de 2027 e ainda depende da aprovação dos órgãos reguladores e do cumprimento das condições estabelecidas pelas empresas.
Prosus venderá toda a participação na Delivery Hero
A Prosus, grupo sul-africano que controla o iFood no Brasil, comprometeu-se a vender sua participação de 16,8% na Delivery Hero dentro da oferta apresentada pela Uber.
A saída também atende aos compromissos assumidos pela Prosus com a Comissão Europeia durante a aquisição da Just Eat Takeaway, concluída por € 4 bilhões.
Para conseguir a autorização regulatória, o grupo concordou em reduzir significativamente sua posição na Delivery Hero, considerada concorrente direta da Just Eat Takeaway em diferentes mercados.
Esse processo já estava em andamento. A Prosus vendeu uma fatia de 4,5% à própria Uber em abril e negociou outra participação com a gestora Aspex Management em maio.
Com a nova transação, o grupo deixa integralmente a companhia alemã e concentra sua estratégia de delivery em ativos como iFood e Just Eat Takeaway.
Aquisição reúne marcas em diferentes continentes
A Delivery Hero construiu uma operação global por meio de marcas regionais. Entre os principais nomes estão foodpanda, presente em países da Ásia, PedidosYa, com atuação na América Latina, e talabat, voltada ao Oriente Médio.
Ao incorporar essas plataformas, a Uber reduz a necessidade de construir operações do zero em mercados onde ainda possui presença limitada.
A empresa poderá integrar tecnologia, pagamentos, logística, programas de fidelidade e relacionamento com restaurantes, além de ampliar o volume de dados utilizado para organizar as entregas.
O negócio também aumenta de 34 para 58 o número de mercados em que a Uber oferece simultaneamente mobilidade e delivery.
Segundo a companhia, consumidores que utilizam os dois serviços gastam cerca de três vezes mais dentro do aplicativo do que aqueles que recorrem a apenas uma das modalidades.
Essa combinação é central para a estratégia da Uber. A empresa busca transformar seu aplicativo em uma plataforma de serviços recorrentes, na qual o mesmo cliente solicita viagens, pede refeições, compra produtos e contrata entregas.
Operações em 14 países ficarão fora do acordo
A Uber não incorporará os negócios da Delivery Hero em 14 países onde já possui uma posição relevante. A separação busca reduzir os riscos de rejeição da compra pelos órgãos de defesa da concorrência.
Entre os ativos excluídos estão operações do Glovo em Portugal e Espanha, do foodora na Noruega e na Suécia e do Yemeksepeti na Turquia.
Esses negócios serão adquiridos pela SSW Partners, gestora de investimentos sediada em Nova York, por aproximadamente US$ 1,6 bilhão.
A divisão reduz a sobreposição entre as duas empresas em mercados nos quais a combinação poderia criar uma concentração excessiva.
Mesmo com esse ajuste, a transação deverá passar por uma análise regulatória extensa. Autoridades poderão avaliar o impacto sobre restaurantes, entregadores, consumidores e concorrentes em cada região.
Delivery busca escala após a pandemia
A operação faz parte de um processo mais amplo de consolidação no mercado de entregas.
Durante a pandemia, aplicativos de delivery cresceram rapidamente, impulsionados pelo fechamento de restaurantes e pelas restrições à circulação. Com a reabertura das economias, o ritmo diminuiu e as empresas precisaram lidar com custos elevados, concorrência intensa e pressão por rentabilidade.
A operação depende de uma grande base de usuários, restaurantes e entregadores para diluir os investimentos em tecnologia, marketing e logística.
Quanto maior a quantidade de pedidos em determinada região, mais eficiente tende a ser o uso da rede de entregas. A escala também fortalece a capacidade de negociar com restaurantes e oferecer preços competitivos.
Esse cenário estimulou uma sequência de aquisições. A DoorDash comprou a Deliveroo por £ 2,9 bilhões, enquanto a Prosus adquiriu a Just Eat Takeaway.
Agora, a entrada da Delivery Hero na estrutura da Uber cria um grupo com alcance global ainda maior.
Uber aposta na venda cruzada de serviços
O principal ganho estratégico para a Uber está na possibilidade de oferecer mobilidade e entregas aos mesmos consumidores.
Um usuário que já mantém dados de pagamento e endereço cadastrados pode contratar novos serviços com menos etapas. A empresa também consegue utilizar benefícios e programas de assinatura para estimular o uso recorrente da plataforma.
Em mercados onde o Uber Eats possui presença limitada, as marcas da Delivery Hero poderão ampliar rapidamente a base de restaurantes e consumidores disponíveis.
“Ao unir nossas plataformas, vamos levar entregas acessíveis e confiáveis a muitos milhões de pessoas em algumas das economias mais dinâmicas do mundo”, afirmou Dara Khosrowshahi, CEO da Uber.
A integração também poderá gerar economias em áreas como tecnologia, publicidade, suporte e processamento de pagamentos.
Ainda assim, a companhia não poderá simplesmente substituir todas as marcas regionais pelo Uber Eats. Nomes como PedidosYa, foodpanda e talabat possuem reconhecimento e relações locais construídas ao longo de anos.
Sede e empregos serão preservados até 2029
Como parte do acordo, a Uber comprometeu-se a manter a sede da Delivery Hero em Berlim e preservar o quadro de funcionários da companhia até, pelo menos, 2029.
A compradora também anunciou a intenção de investir € 2 bilhões na Alemanha durante os próximos cinco anos.
Os compromissos ajudam a reduzir a resistência política à venda de uma das principais empresas de tecnologia criadas no país.
A Delivery Hero foi fundada em 2011 por Niklas Östberg e abriu capital na Bolsa de Frankfurt em 2017. A companhia cresceu por meio de aquisições e da expansão para mercados nos quais o delivery ainda estava em fase inicial.
Östberg, porém, não deverá permanecer na liderança durante a integração. Pressionado por investidores ativistas, o fundador concordou em deixar o comando da empresa.









