A Eli Lilly concordou em comprar a AtaiBeckley por até US$ 3,8 bilhões, em uma operação que amplia a presença da farmacêutica no mercado de neurociência e coloca a companhia entre as grandes empresas interessadas em tratamentos derivados de substâncias psicodélicas.
Pelo acordo, a Lilly pagará inicialmente US$ 6,75 por ação da empresa, o equivalente a aproximadamente US$ 2,8 bilhões em dinheiro. Os acionistas poderão receber mais US$ 2,50 por papel, cerca de US$ 1 bilhão no total, caso sejam alcançadas metas relacionadas ao desenvolvimento dos medicamentos.
O valor inicial representa um prêmio de 26% sobre o preço de fechamento das ações da AtaiBeckley na quarta-feira (15). Após o anúncio, os papéis da companhia avançaram 32% no início das negociações de quinta-feira (16), enquanto as ações da Lilly recuaram 0,9%.
O principal ativo envolvido na transação é o BPL-003, um spray nasal experimental de ação rápida desenvolvido para pacientes com depressão resistente aos tratamentos disponíveis.
Spray nasal é principal aposta da aquisição
O BPL-003 está sendo testado como alternativa para pessoas que não apresentam melhora suficiente com antidepressivos convencionais.
Em estudos intermediários, pacientes que receberam uma única dose apresentaram redução relevante dos sintomas depressivos em dois dias. Segundo os resultados divulgados pela empresa, os benefícios foram observados por até oito semanas.
O tratamento recebeu da Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos, a FDA, a designação de Terapia Inovadora. O enquadramento é concedido a medicamentos experimentais que podem representar avanços em condições graves e permite uma interação mais próxima com a agência reguladora durante o desenvolvimento.
A designação, contudo, não representa aprovação para comercialização. A AtaiBeckley ainda precisa concluir os testes clínicos e demonstrar segurança e eficácia antes de solicitar autorização para vender o produto.
A empresa também desenvolve tratamentos experimentais para transtorno de ansiedade social, o que amplia o conjunto de ativos incorporados pela Lilly.
Tempo menor de aplicação pode favorecer tratamento
Um dos diferenciais buscados pela AtaiBeckley é reduzir o tempo durante o qual o paciente precisa permanecer em observação.
A experiência provocada pelo BPL-003 dura aproximadamente de uma a duas horas. Esse período é menor do que o exigido por alguns tratamentos psicodélicos concorrentes, que podem demandar monitoramento clínico por até oito horas.
A duração é um ponto importante para hospitais e clínicas. Quanto mais longa a sessão, maior tende a ser a necessidade de profissionais, salas e acompanhamento, o que eleva os custos e limita o número de pacientes atendidos.
Srinivas Rao, CEO da AtaiBeckley, afirmou recentemente que a companhia buscou desenvolver um medicamento que pudesse ser incorporado com maior facilidade à rotina de pacientes e médicos.
A referência é o Spravato, spray nasal da Johnson & Johnson utilizado contra determinados casos de depressão resistente e que ajudou a validar comercialmente uma nova categoria de tratamentos neuropsiquiátricos.
Negócio recupera uma área histórica para a Lilly
A aquisição reforça uma área que já teve papel importante na trajetória da Eli Lilly.
A farmacêutica ajudou a transformar o tratamento da depressão com o lançamento do Prozac, que ganhou espaço mundial a partir do fim da década de 1980 e se tornou um dos medicamentos mais conhecidos da indústria.
Nos últimos anos, a companhia passou a ser mais associada aos medicamentos para diabetes e obesidade, especialmente Mounjaro e Zepbound. O crescimento desses produtos colocou a Lilly entre as empresas mais valiosas do setor farmacêutico.
Apesar do avanço metabólico, a empresa continuou investindo em neurociência. Seu portfólio inclui pesquisas e produtos voltados à doença de Alzheimer, à dor e a outros transtornos do sistema nervoso.
Ao comprar a AtaiBeckley, a farmacêutica ganha acesso a uma empresa especializada e a um medicamento que já ultrapassou as etapas iniciais de pesquisa.
A operação reduz o tempo que a Lilly precisaria para desenvolver internamente uma tecnologia semelhante, mas transfere para a companhia os riscos clínicos e regulatórios do projeto.
Mercado pode movimentar US$ 7 bilhões até 2032
Os medicamentos psicodélicos passaram vários anos à margem dos investimentos tradicionais da indústria farmacêutica. O interesse cresceu com resultados clínicos promissores, mudanças regulatórias e o desempenho de produtos como o Spravato.
Analistas da Bloomberg Intelligence estimam que esse mercado poderá alcançar US$ 7 bilhões em vendas anuais até 2032.
A projeção inclui tratamentos para depressão, ansiedade e outros transtornos psiquiátricos nos quais as opções atuais não atendem todos os pacientes.
O avanço do setor, no entanto, depende de fatores que vão além da aprovação dos medicamentos. As empresas precisam definir como os tratamentos serão administrados, quais profissionais poderão acompanhá-los e de que forma os planos de saúde reembolsarão sessões que podem exigir supervisão prolongada.
Também existe o desafio de diferenciar o uso médico controlado do consumo recreativo. Os produtos em desenvolvimento utilizam doses, protocolos e ambientes clínicos definidos, com acompanhamento especializado.
Outras farmacêuticas acompanham o setor
A entrada da Lilly movimentou as ações de empresas que também desenvolvem medicamentos psicodélicos.
Os papéis da Compass Pathways avançaram 2,9%, enquanto a Cybin subiu 8,7% e a GH Research registrou alta de 8,4%. A Definium Therapeutics, que pesquisa um tratamento baseado em LSD para transtorno depressivo maior, ganhou 4,2%.
A reação mostra que investidores enxergaram a aquisição como uma validação do setor. A disposição de uma farmacêutica do porte da Lilly para pagar bilhões de dólares pode estimular novas parcerias, compras e investimentos.
Além da Johnson & Johnson, empresas como AbbVie, Compass Pathways, GH Research e Definium desenvolvem projetos nessa área.
A competição deverá considerar não apenas a eficácia clínica, mas também a duração do efeito, o tempo de permanência na clínica, a facilidade de aplicação e o custo total do tratamento.
AtaiBeckley ganhou apoio de investidores conhecidos
A AtaiBeckley foi fundada pelo empresário alemão Christian Angermayer e recebeu apoio de investidores como o bilionário Peter Thiel.
Angermayer começou a defender o retorno dos psicodélicos à pesquisa médica em 2014, quando o tema ainda encontrava maior resistência entre investidores e grandes farmacêuticas.
Com o avanço dos estudos, empresas especializadas passaram a atrair capital e a estabelecer parcerias com grupos maiores.
As ações da AtaiBeckley mais que dobraram nos 12 meses anteriores ao anúncio da aquisição. Antes do acordo, a companhia já avaliava alternativas para o BPL-003, incluindo uma eventual venda ou parceria.
A Lilly acabou optando pela compra completa da empresa, garantindo o controle sobre o desenvolvimento e a futura comercialização dos medicamentos.









