Uma molécula conhecida há décadas na medicina humana se tornou uma das principais fontes de receita da Amazon AgroSciences, fabricante de fertilizantes especiais com sede em São Carlos, no interior de São Paulo.
A companhia desenvolveu, ao lado de pesquisadores e instituições brasileiras, uma linha agrícola baseada em N-acetilcisteína, a NAC, voltada inicialmente ao manejo de problemas associados ao greening dos citros. Hoje, os produtos com a tecnologia respondem por 40% do faturamento total da empresa, segundo números divulgados pela própria companhia.
O avanço é resultado de uma parceria que envolve o Instituto Agronômico de Campinas (IAC), a Universidade Federal de São Carlos, a startup CiaCamp e a Amazon AgroSciences. A empresa agora busca levar a solução para outras culturas, especialmente milho e hortifrúti, além de preparar entrada no segmento de biológicos.
Pesquisa começou há quase 20 anos
A base científica da tecnologia está ligada ao trabalho de Alessandra Alves de Souza, pesquisadora do Centro de Citricultura Sylvio Moreira, ligado ao IAC, em Cordeirópolis.
Há quase duas décadas, ela passou a estudar o uso agrícola da N-acetilcisteína e seus análogos. A substância já era conhecida por aplicações em saúde humana, mas a pesquisa buscava entender seu potencial contra doenças bacterianas em plantas.
Em setembro de 2025, Alessandra recebeu reconhecimento do Instituto de Propriedade Intelectual da União Europeia por sua atuação como inventora do uso da molécula na agricultura, segundo informações divulgadas no setor.
A descoberta foi posteriormente licenciada a Simone Cristina Picchi, fundadora da CiaCamp. A partir de um acordo entre a startup, o IAC e a Amazon AgroSciences, chegou ao mercado o primeiro produto comercial da empresa para citricultura baseado na tecnologia.
Linha NAC ganha espaço na receita
O principal lançamento foi o GranBlack, primeiro produto da linha NAC da companhia.
Segundo Felipe Palma, diretor comercial da Amazon AgroSciences, a proposta é auxiliar no manejo do HLB, doença conhecida como greening, um dos maiores problemas da citricultura brasileira.
A empresa afirma que a tecnologia atua sobre o fluxo de seiva da planta, tentando reduzir efeitos associados à obstrução do floema e melhorar o transporte de nutrientes.
Resultados apresentados pela companhia a partir de estudos de campo indicam que, no terceiro ano de uso, a queda de frutos pode ser reduzida pela metade. O dado deve ser tratado como resultado reportado pelos estudos ligados à tecnologia, não como desempenho garantido para todas as condições de cultivo.
O peso comercial já é relevante. Aproximadamente 60% da receita da Amazon AgroSciences vem da citricultura, enquanto a linha baseada em NAC responde sozinha por 40% do faturamento total.
Empresa pequena aposta em pesquisa para competir
A Amazon AgroSciences é uma empresa familiar especializada em fertilizantes líquidos e especiais. Sem a escala de multinacionais que investem bilhões em pesquisa e desenvolvimento, adotou uma estratégia baseada em parcerias com universidades, institutos públicos e startups.
“Nós somos uma empresa familiar. Para sobreviver num cenário como esse, buscamos fazer coisas diferenciadas, entender a dor do produtor e desenvolver soluções para essa dor”, afirmou Palma ao AgFeed.
A companhia vê a aproximação com pesquisadores como uma forma de acessar conhecimento científico e transformar descobertas em produtos comerciais.
Esse modelo ganhou importância em um período mais difícil para o agronegócio. Em 2025, as vendas da Amazon AgroSciences cresceram apenas 2%, após anos em que a empresa chegou a avançar cerca de 20% ao ano.
Para 2026, a expectativa é de estabilidade.
Crise das revendas também afetou o negócio
Essa desaceleração não veio apenas dos preços agrícolas. A companhia afirma ter sido afetada por recuperações judiciais de revendas e pelo aumento da inadimplência no mercado de insumos. Atualmente, esse índice estaria em cerca de 3%, patamar que a administração considera controlado.
A citricultura também atravessou mudanças importantes de preço, pressionando decisões de investimento de produtores e distribuidores. Nesse ambiente, a linha NAC ajudou a sustentar a receita da companhia, segundo Palma.
Próxima aposta está no milho
A estratégia para voltar a crescer em ritmos mais elevados passa pela diversificação. A empresa pretende reduzir a dependência dos citros e ampliar aplicações da N-acetilcisteína em outras culturas. O milho é uma das prioridades.
Segundo Palma, testes indicam potencial no manejo de problemas ligados ao enfezamento, associado à cigarrinha. A companhia observa uma semelhança fisiológica com o desafio enfrentado no greening, já que ambos podem comprometer o transporte interno de nutrientes da planta.
“Não queremos depender de uma só cultura. Estamos entrando nos cereais também, principalmente com o milho e um pouco de HF”, afirmou o executivo.
A Amazon AgroSciences também trabalha em formulações que associam NAC a outros aminoácidos e prepara entrada no mercado de produtos biológicos.









