O mercado financeiro brasileiro vive um momento de reajuste de expectativas, guiado mais pelos ventos externos do que pelas dinâmicas domésticas. Embora as decisões dos comitês de política monetária do Brasil e dos Estados Unidos ainda não tenham sido oficializadas, a pesquisa Pré-Copom da XP revela um consenso absoluto entre as gestoras de fundos multimercados: a manutenção das taxas atuais.
O cenário projeta a Selic estagnada em 15% ao ano e os juros americanos no intervalo entre 3,5% e 3,75%. Contudo, o que realmente chama a atenção no levantamento é a mudança estrutural na percepção macroeconômica, com o cenário global exercendo uma “dominância” sobre os indicadores brasileiros.
Essa influência externa atua como uma engrenagem favorável para a economia nacional. Com um ambiente global mais estável e previsível, o investidor estrangeiro retoma o apetite por ativos de países emergentes, o que fortalece o real frente ao dólar.
O reflexo imediato dessa valorização cambial é o controle da inflação, uma vez que reduz o custo de produtos importados e commodities. Esse “freio natural” nos preços permitiu que as gestoras revisassem drasticamente suas projeções para o futuro: se em janeiro de 2025 a estimativa para a Selic ao final de 2026 era de 15%, o novo levantamento aponta para uma queda expressiva, situando a taxa em 11,8%.
A confiança na moeda brasileira é o pilar dessa nova estratégia dos grandes fundos. De acordo com a XP, o otimismo com o real deu um salto impressionante: o percentual de gestoras “compradas” na moeda local passou de 33% no início de 2025 para 72% atualmente.
Esse movimento consolidou o chamado “Kit Brasil”, estratégia que combina o aproveitamento dos juros ainda elevados com a aposta na valorização do real. Como resultado colateral positivo, as projeções para o IPCA em 2026 também recuaram, caindo de um pico de 4,7% para 4,0%, alinhando-se à visão de que o choque de custos foi absorvido pelo câmbio.
Apesar do otimismo com os juros e a moeda, a Bolsa brasileira (B3) perdeu espaço na preferência dos gestores. O levantamento indica uma redução na convicção sobre os ativos domésticos, com o posicionamento comprado caindo de 64% em setembro para os atuais 42%. Em contrapartida, há um aumento expressivo pelo mercado acionário norte-americano (offshore EUA).
Essa cautela local sugere que, diante da volatilidade interna e de ruídos fiscais persistentes, as casas de gestão preferem capturar a recuperação econômica global diretamente na fonte, priorizando mercados mais consolidados enquanto aguardam maior clareza sobre o cenário político-econômico brasileiro.








