Se houve um ambiente, além do mundo acadêmico, onde a Teoria da Evolução de Charles Darwin foi amplamente divulgado, foi o corporativo.
Citações de frases como: “Não é o mais forte que sobrevive, mas o que melhor se adapta às mudanças” estamparam paredes dos auditórios onde se ministravam seminários sobre criatividade disruptiva, convidando a todos para uma jornada vencedora.
As evidências históricas estavam a favor, as maiores empresas de 50 anos atrás, estão distantes da posição que ocupavam, se é que ainda existem. Foram ultrapassadas.
Mas sentia que a mesma ênfase que era atribuída às empresas, não era dedicada às pessoas. No máximo, se falava sobre resiliência, e para facilitar a compreensão, era descrita como capacidade de se adaptar às pressões, tal qual uma garrafa pet, que, após ser torcida, retomava a sua forma original.
Era como que se esperasse que as pessoas se adaptassem automaticamente, suportassem as pressões e desfrutassem todas as oportunidades que o novo ambiente poderia oferecer.
Pouco se percebia que o velho paradigma de que os homens tomam decisões baseados na razão estava errado.
A nossa percepção do mundo foi moldada pelo meio em que crescemos e as primeiras impressões nos acompanham sem que reparemos o peso da sua influência. Por estarmos tão habituados a ela, a consideramos parâmetro do que é certo.
Assim nos acostumamos a ver o mundo dividido entre o certo e o errado, sem espaço para o diferente, tornando o mundo dual.
Quando a globalização é uma realidade, ainda que sujeitos a alguns tropeços, ter capacidade de adaptação é fundamental para se sobressair num mundo tão competitivo.
Quando falamos de pessoas, estamos nos referindo a diferenças culturais que resultam em diferentes comportamentos, os quais temos muitas dificuldades para aceitarmos, pois ultrapassam o limite do nosso habitual, do nosso conhecimento, do que julgamos certo.
Tive oportunidade de trabalhar em empresas de culturas totalmente distintas, tais como: Espanhola, Japonesa, Suíça e Italiana.
Sem dúvida, o maior choque pelo qual passei foi o meu começo na empresa japonesa, depois de uma longa jornada em empresa espanhola, com sua forma direta de comunicação e da pouca formalidade hierárquica.
Apesar de ter origem asiática, toda minha formação intelectual e social se deu no Brasil. Posso dizer que depois de 14 anos trabalhando numa empresa espanhola, quase tive um choque anafilático. Acostumado a decisões rápidas, discussões acaloradas e um trato informal, a nova realidade da empresa japonesa era sufocante.
Sabia que precisava me acostumar e me adaptar, mas simplesmente fazer por necessidade não era motivador o suficiente. Precisava entender o por que desse comportamento. No meu caso, o caminho que escolhi foi estudar a história do Japão e me deparei com os primeiros “Shogun”, de como eles moldaram a ideia de responsabilidade social e como isso impactou no processo de tomada de decisões.
Perguntei aos colegas japoneses se os princípios implantados pelo “shogunato” ainda eram praticados nas empresas. Eles me confirmaram que sim e me explicaram como se dava o processo de tomada de decisão.
Entendido o processo, o que era lento tornou-se rápido. Passei a atuar da maneira que era lógica e normal para “eles” sem ficar preso ao meu jeito. E, justiça seja feita, se para muitos a decisão poderia parecer demorada, a implantação era das medidas aprovadas era muito eficiente, como nunca vi.
Teve um episódio que ilustra bem como a diferença cultural pode provocar mal entendidos. Quando recém contratado, entrou um diretor expatriado na minha sala comentando que eu devia estar com muito trabalho, ao que respondi que sim. Em seguida mencionou que uma viagem para o Japão era longa e cansativa e que naquele período chovia muito, o que seria muito desagradável e por fim comentou que haveria uma reunião. Então, nesse momento, o interrompi enfatizando: “Se é para ir, o senhor me diz e eu vou! Se está chovendo ou não, não faz diferença, afinal vou a trabalho e não a passeio”. Ao ouvir o meu posicionamento, ele ficou aliviado e me disse que se eu pudesse ir seria muito bom.
Tempos depois, comentei esse fato com minha professora de japonês, salientando que havia estranhado o “convite”. Parecia que ele não queria que eu fosse, disse para a professora. Nesse momento ela me falou: “na educação japonesa, quando alguém te convida para algo, ele já dá possíveis desculpas pelas quais você poderia recusar o convite, evitando constrangimento da sua parte. No Brasil, isso soa totalmente distinto, concorda?
Para que, em Roma, você aja como romanos, não basta simplesmente imitá-los, é preciso entender o porque dos costumes, e, assim, você poderá incorporar esses hábitos ao seu “self” aprimorando a sua capacidade de adaptação e aproveitando mais rapidamente as novas oportunidade que o novo mundo pode oferecer.









