A China anunciou nesta quarta-feira a compra de 200 aeronaves da Boeing, em um movimento que representa o primeiro grande acordo da fabricante americana com o mercado chinês em quase uma década. O comunicado foi divulgado pelo Ministério do Comércio chinês, sem especificar os modelos das aeronaves envolvidas. Se concretizadas, as encomendas marcariam o retorno da Boeing a um mercado do qual havia sido praticamente excluída em meio às tensões comerciais entre Pequim e Washington.
O anúncio é desdobramento direto da cúpula realizada na semana passada entre o presidente americano Donald Trump e o presidente chinês Xi Jinping. Após o encontro, Trump afirmou que as compras da Boeing poderiam chegar a 750 aviões, equipados com motores da GE Aerospace. A declaração desta quarta-feira representa a primeira confirmação oficial de Pequim sobre as encomendas, embora em volume menor do que o mencionado pelo presidente americano.
Além das aeronaves, os dois países sinalizaram avanços em outras frentes comerciais. Segundo o Ministério do Comércio chinês, os dois lados buscarão reduções tarifárias recíprocas em mercadorias no valor de US$ 30 bilhões ou mais cada, com a condição de que as tarifas americanas sobre a China não excedam o nível estabelecido em um acordo firmado no ano passado. O acordo anterior, fechado em Kuala Lumpur, havia estendido a trégua tarifária por um ano e incluído pausas nas restrições chinesas a minerais de terras raras e ímãs — insumos estratégicos para eletrônicos, veículos elétricos e defesa.
No campo agrícola, a Casa Branca afirmou que a China se comprometeu a comprar pelo menos US$ 17 bilhões em produtos agrícolas americanos entre 2026 e 2028, excluindo um compromisso preexistente sobre soja. O Ministério do Comércio chinês não confirmou o número, mas afirmou que os dois lados alcançaram “resultados positivos” no setor e chegaram a acordos sobre acesso mútuo ao mercado. Entre as medidas anunciadas, Pequim irá restabelecer o registro de exportadores de carne bovina dos EUA que atendam aos requisitos e retomar importações de alguns produtos avícolas americanos. Em contrapartida, os EUA prometeram remover ou avançar na eliminação de barreiras não tarifárias que afetam exportações agrícolas chinesas, incluindo medidas para facilitar a entrada de produtos lácteos da China no mercado americano.
O otimismo em torno dos anúncios, no entanto, é temperado pela incerteza sobre a trégua comercial, que deve expirar em novembro. O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, disse à Reuters na véspera que o governo Trump “não tinha pressa” em prorrogar o acordo sobre tarifas e minerais críticos, sinalizando que novas negociações ainda estão por vir. O ministério chinês afirmou que ambos os lados trabalharão juntos para abordar preocupações mútuas sobre controles de exportação, e que Pequim analisa pedidos de licença para exportação de minerais críticos, incluindo terras raras, destinados a usos civis.
Para os mercados, o tom geral das tratativas é visto como positivo, ainda que os impactos econômicos imediatos sejam limitados. “Se eles reduzirem as tarifas para produtos no valor de cerca de US$ 30 bilhões, isso representaria cerca de 10% das importações americanas da China. Isso não é significativo o suficiente para alterar a previsão do PIB do mercado”, avaliou Zhiwei Zhang, presidente e economista-chefe da Pinpoint Asset Management. “Ainda assim, este é um passo positivo na direção certa. Enquanto os dois países estiverem dialogando para estabilizar as relações bilaterais, isso é uma boa notícia para os investidores globais.”
A sequência de anúncios desta semana sugere que Estados Unidos e China buscam consolidar um ambiente de menor confrontação comercial antes do vencimento da trégua em novembro. O retorno da Boeing ao mercado chinês — o segundo maior de aviação civil do mundo — seria um dos sinais mais concretos dessa reaproximação, com impacto direto sobre a carteira de pedidos e as perspectivas financeiras da fabricante americana.









