As gigantes norte-americanas Coca-Cola, Tesla e eBay enviaram manifestações formais ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) contestando a proposta de Washington de impor uma tarifa de 25% sobre uma ampla gama de produtos importados do Brasil. A barreira alfandegária, anunciada em junho com base na Seção 301 — dispositivo que permite retaliações coercitivas contra práticas comerciais consideradas prejudiciais ao mercado dos EUA —, teve seu prazo de consulta pública encerrado em 1º de julho.
A administração do presidente Donald Trump justificou a abertura da investigação citando entraves e queixas em diversas frentes, que incluem políticas e regulamentações brasileiras sobre comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais julgadas injustas, combate à corrupção, além de disputas envolvendo propriedade intelectual, o acesso do etanol americano ao mercado brasileiro e o desmatamento ilegal. No entanto, as companhias norte-americanas alegam que o tarifaço gerará um ônus severo de curto prazo em suas cadeias produtivas globais, penalizando os próprios consumidores e fabricantes dos EUA em vez de punir as práticas investigadas.
A Coca-Cola concentrou sua defesa no setor de insumos agrícolas, solicitando formalmente que o USTR mantenha a isenção proposta para a importação de laranja brasileira e estenda o mesmo regime de exclusão ou transição para os derivados de limão originários do Brasil. A multinacional de bebidas argumentou que a substituição de fornecedores não ocorre de forma imediata e que uma troca forçada exigiria longos e custosos processos de testes e revalidação de segurança alimentar.
A justificativa técnica da fabricante baseia-se na forte decadência da citricultura norte-americana, castigada por doenças agrícolas, eventos climáticos extremos e mudanças no uso do solo. Como exemplo, a Coca-Cola destacou o colapso na colheita da Flórida, principal polo produtor dos EUA, cuja safra despencou de 242 milhões de caixas no período de 2003/2004 para apenas 12 milhões de caixas na temporada de 2025/2026. A empresa reforçou que a produção doméstica é incapaz de abastecer a indústria de sucos em prazos comercialmente viáveis, transformando o Brasil em uma fonte complementar indispensável para manter as fábricas operando em solo americano.
A Tesla, montadora de veículos elétricos controlada por Elon Musk, adotou uma linha de argumentação focada na manufatura industrial de alta tecnologia. Embora tenha pontuado que apoia a reindustrialização e a resiliência das cadeias de suprimento americanas no longo prazo, a montadora alertou que essa transição exige tempo. Segundo a Tesla, determinados componentes mecânicos e eletrônicos fornecidos pelo Brasil ainda não possuem equivalentes produzidos nos Estados Unidos com a escala ou competitividade necessárias. A empresa concluiu que punir componentes industriais antes que as alternativas locais consigam expandir sua capacidade instalada de forma realista gerará prejuízos imediatos à competitividade fabril do país.
Na frente do comércio eletrônico e varejo digital, o eBay solicitou ao órgão regulador que modifique o escopo da Seção 301 para isentar integralmente os produtos de segunda mão, usados ou seminovos provenientes do Brasil. A plataforma argumenta que taxar a revenda de itens no mercado secundário desvirtua o objetivo da sanção, uma vez que o fabricante original — alvo da investigação geopolítica de Washington — não recebe nenhum sinal econômico ou punição financeira por transações de bens já adquiridos anos atrás. O eBay alertou ainda que a tarifa prejudicaria pequenos revendedores e poderia inflar artificialmente a busca por produtos novos, inclusive de mercados que mantêm as exatas distorções concorrenciais que o governo norte-americano tenta coibir.







