A GameStop surpreendeu o mercado neste domingo ao propor a aquisição do eBay por cerca de US$ 56 bilhões em uma combinação de dinheiro e ações. A oferta, revelada em carta enviada pelo CEO Ryan Cohen ao conselho do eBay, prevê o pagamento de US$ 125 por ação — metade em dinheiro e metade em ações —, o que representa um prêmio de aproximadamente 20% sobre o fechamento dos papéis da empresa na sexta-feira.
A proposta é considerada ousada até para os padrões de Wall Street. O eBay tem capitalização de mercado quase quatro vezes maior que a da GameStop, tornando a tentativa de aquisição uma das mais assimétricas da história recente do setor de tecnologia. Para viabilizar o negócio, Cohen afirmou já ter garantido compromissos financeiros, incluindo uma carta de compromisso para cerca de US$ 20 bilhões em dívidas da TD Securities, subsidiária do TD Bank. A parcela restante seria coberta pelos US$ 9,4 bilhões em caixa que a GameStop possuía em janeiro, além de capital próprio e financiamento de terceiros. Cohen também pode buscar apoio de fundos soberanos do Oriente Médio, segundo o Wall Street Journal.
Em sua carta ao conselho do eBay, Cohen argumentou que a fusão das duas empresas criaria um concorrente capaz de rivalizar com a Amazon. Ele afirmou que a GameStop reduziria em US$ 2 bilhões os custos anualizados do eBay em até 12 meses após a conclusão do negócio, com impacto positivo direto nos lucros por ação. Além disso, os 1.600 pontos de venda físicos da varejista nos Estados Unidos serviriam como rede nacional para autenticação, recebimento, processamento e comércio em tempo real de produtos. “O eBay deveria valer — e valerá — muito mais dinheiro”, disse Cohen. “Estou pensando em transformar o eBay em algo que valha centenas de bilhões de dólares.”
Cohen também revelou que a GameStop já acumulou uma participação de 5% no eBay por meio de ações e derivativos, sinalizando que o movimento vem sendo planejado há algum tempo. O executivo adiantou ainda que, caso o conselho do eBay não se mostre receptivo à proposta, está disposto a levar a oferta diretamente aos acionistas por meio de uma disputa por procuração. O eBay não se manifestou publicamente sobre a oferta até o momento.
A trajetória da GameStop torna a proposta ainda mais simbólica. A varejista de videogames, que chegou a ser dada como moribunda pelo mercado, tornou-se o epicentro de um dos maiores fenômenos especulativos da história recente quando, em 2021, uma legião de investidores individuais comprou suas ações em massa, derrubando fundos de hedge que apostavam na queda dos papéis. Na época, as ações chegaram a disparar mais de 1.700%. Cohen entrou para o conselho da empresa naquele mesmo ano e, posteriormente, assumiu o comando como CEO, promovendo cortes de custos agressivos que devolveram a lucratividade à companhia.
Apesar da recuperação financeira, a GameStop ainda enfrenta ventos contrários estruturais. A empresa reportou queda de 14% na receita do quarto trimestre, reflexo da migração dos jogadores para plataformas digitais e downloads online — tendência que pressiona o modelo de negócio baseado em lojas físicas. A aquisição do eBay seria, portanto, uma aposta de Cohen para reinventar a companhia em escala e diversificar suas fontes de receita de forma radical.
Do outro lado da negociação, o eBay chega à mesa em posição relativamente confortável. Fundado em 1995 como um hobby do empreendedor Pierre Omidyar, o marketplace projetou na semana passada uma receita para o segundo trimestre acima das estimativas de Wall Street, apostando na demanda por itens colecionáveis, acessórios automotivos e leilões transmitidos ao vivo. No fechamento de sexta-feira, a empresa tinha valor de mercado de cerca de US$ 46 bilhões, ante os quase US$ 12 bilhões da GameStop — cujas ações acumulam alta de 32,1% no ano, contra 19,5% do eBay.
Caso a fusão se concretize, Cohen assumiria o cargo de CEO da empresa resultante. A operação subverteria as convenções tradicionais do mercado de fusões e aquisições, onde raramente uma companhia menor tenta engolir uma rival quase quatro vezes maior — e elevaria o “rei dos memes”, como Cohen é chamado por investidores de varejo, a um novo patamar no mundo corporativo americano.









