A Torresani passou mais de três décadas crescendo em Blumenau, longe do mercado imobiliário mais disputado de Santa Catarina. Agora, o grupo criado pelo engenheiro Valter Luiz Torresani acelera no litoral norte do estado, mira projetos de maior escala e tenta aproximar dois negócios que nasceram em momentos diferentes: construção civil e geração de energia.
A empresa soma mais de 110 empreendimentos entregues, 730 mil metros quadrados construídos e R$ 4,5 bilhões em Valor Geral de Vendas, o VGV, indicador que representa a soma estimada do preço das unidades de um projeto imobiliário. Para 2026, a previsão é alcançar R$ 1 bilhão em vendas.
O avanço ocorre em cidades como Balneário Piçarras, Barra Velha, Itapema e Porto Belo, região marcada por metro quadrado valorizado, concorrência forte e terrenos cada vez mais disputados. Ao mesmo tempo, a Eletrisa, braço de energia do grupo, administra e opera mais de 50 usinas em seis estados.
De Blumenau para o litoral mais disputado de Santa Catarina
A entrada no litoral norte mudou a escala da Torresani. Hoje, o grupo tem cerca de 230 mil metros quadrados em construção, sendo 145 mil metros quadrados no litoral e 85 mil metros quadrados em Blumenau.
A carteira em desenvolvimento reúne 18 projetos, dos quais 11 ficam no litoral norte catarinense. Apenas nos empreendimentos frente mar, a previsão é de aproximadamente 120 mil metros quadrados de área construída.
A decisão levou a construtora para um ambiente diferente daquele em que cresceu. Em Blumenau, a marca construiu reputação ao longo de décadas. No litoral, precisou disputar terreno, corretores, investidores e compradores com empresas já consolidadas.
“Eu resolvi ir para o litoral porque era um desafio. Construir fora da cidade, em um mercado consolidado, com muitas empresas, exigia outra estrutura”, afirma Torresani.
A escolha não foi concentrar esforços em Balneário Camboriú, mercado já mais adensado e caro. A empresa buscou áreas maiores em cidades como Piçarras, Barra Velha e Porto Belo, onde ainda encontra terrenos com potencial para projetos de maior impacto urbano.
O modelo nasceu do parcelamento próprio
O primeiro prédio próprio da Torresani foi lançado em 1989. Naquele período, o mercado de Blumenau vendia apartamentos em torno de 24 meses, prazo médio da construção. Como o crédito bancário era restrito, o comprador precisava pagar o imóvel enquanto a obra avançava.
Torresani percebeu que a parcela alta travava parte da demanda. A solução foi alongar o pagamento para 48 meses e financiar o cliente com o próprio caixa da construtora.
“Eu fiz a média e pensei: se o mercado vende em 24 meses e vende mais no final da obra, por que não vender no início em 48 meses? Lancei o primeiro prédio da Torresani nesse prazo. Foi um sucesso, porque era metade do valor da parcela”, diz.
Esse formato exigia controle rígido. O dinheiro das vendas entrava aos poucos e ajudava a sustentar a obra. Para funcionar, a empresa precisava vender, construir, controlar custos e entregar no prazo.
Nos anos de inflação alta, enquanto muitos negócios olhavam principalmente para a gestão financeira, Torresani concentrou parte do esforço no canteiro. A construtora criou sistemas próprios para acompanhar pagamentos, notas promissórias e lançamentos de obra.
Também buscou ganhos de eficiência na construção. Em parceria com universidade e fabricante, desenvolveu um tijolo maior para reduzir camadas de alvenaria e consumo de argamassa.
“Conseguimos reduzir em um sexto a quantidade de argamassa, mão de obra, movimentação e recebimento de material com um estudo simples junto ao fabricante”, afirma.
Energia entrou no grupo pela lógica da construção
A entrada no setor elétrico aconteceu cerca de 20 anos atrás. Um amigo da família, ligado a projetos de pequenas centrais hidrelétricas, buscava uma forma de financiar duas usinas. Os ativos eram considerados pequenos para investidores institucionais, mas grandes demais para uma captação simples.
Torresani aplicou uma lógica parecida com a usada nos imóveis: dividir o projeto em cotas e vender para investidores qualificados.
“Eles me passaram os números e eu montei o processo. Eu disse: vamos fazer igual apartamento, vamos dividir e vender. Vamos fazer com que o pequeno investidor compre”, afirma.
O modelo funcionou e abriu caminho para a criação da Torresani Energia. Depois, veio a necessidade de administrar sócios, assembleias, conselhos, contratos de compra e venda de energia e a operação das plantas. Dessa demanda nasceu a Eletrisa.
Eletrisa opera mais de 50 usinas em seis estados
A Eletrisa começou cuidando das usinas ligadas ao próprio grupo, mas passou a oferecer serviços para terceiros. Hoje, administra e opera mais de 50 usinas, com cerca de 300 megawatts de potência instalada sob sua responsabilidade.
A atuação se espalha por Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Rondônia. O portfólio inclui pequenas centrais hidrelétricas, centrais geradoras hidrelétricas, usinas solares e térmicas.
Em Blumenau, a empresa mantém um centro de operações remoto que monitora as usinas 24 horas por dia. O sistema acompanha mais de 1.000 itens por planta, controla turbinas e equipamentos e permite acionar ou desligar unidades à distância.
“Se um disjuntor começa a aquecer, o sistema já avisa o centro de manutenção. A equipe pode levar uma peça de reserva antes de a usina parar. Se vai chover muito, a operação pode esvaziar o lago para receber mais água”, afirma Torresani.









