Os investidores estrangeiros retiraram R$ 14,91 bilhões da Bolsa brasileira (B3) ao longo do mês de maio de 2026, considerando apenas as operações no mercado secundário. O volume consolidado representa a maior saída mensal de recursos do país desde janeiro de 2022, superando o recorde negativo anterior de R$ 13,21 bilhões registrado em agosto de 2023. Mesmo quando computados os aportes em ofertas públicas iniciais (IPOs) e follow-ons, o saldo líquido permanece expressivamente deficitário em R$ 13,27 bilhões, consolidando o maior fluxo de desinvestimento da série histórica recente.
O forte movimento de saída, frequentemente associado no jargão financeiro ao jargão sazonal “sell in may and go away” (venda em maio e vá embora), reflete uma reversão abrupta de expectativas. No início do ano, o Brasil e outros mercados emergentes haviam atraído capital externo expressivo devido a valuations atraentes, commodities sustentadas e moedas com prêmios de juros elevados (estratégia de carry trade). Contudo, analistas do BB Investimentos apontam que aquele ingresso de recursos possuía um caráter predominantemente tático e de curto prazo, e não uma realocação estrutural na bolsa doméstica.
A virada de mão dos grandes fundos globais contra o mercado brasileiro é explicada por uma combinação de fatores macroeconômicos e geopolíticos. O conflito armado entre o Irã e os Estados Unidos, iniciado em 28 de fevereiro, gerou uma escalada nos preços e uma severa redução nos estoques globais de petróleo. Se por um lado a valorização da commodity impulsionou as ações de petroleiras nacionais como a Petrobras — que acumula alta próxima a 38% em 2026 —, por outro acendeu o sinal de alerta para o repique da inflação global.
Diante do risco inflacionário generalizado, as perspectivas de cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed) foram frustradas em maio. A sinalização de que o banco central americano precisará manter ou elevar as taxas de juros para conter os preços fez com que os rendimentos dos títulos públicos dos Estados Unidos (os Treasuries Yields) atingissem os maiores patamares desde 2007. A atratividade dos títulos soberanos americanos drenou a liquidez dos mercados emergentes, que são naturalmente mais voláteis e penalizados em momentos de aversão ao risco global.
Adicionalmente, o foco dos gestores internacionais retornou com força para o setor de tecnologia e para o chamado “Trade de IA”. Essa dinâmica favoreceu as bolsas americanas — que renovaram recordes históricos consecutivamente — e os mercados emergentes asiáticos fortemente integrados à cadeia de semicondutores, como Taiwan e Coreia do Sul. Essa rotação de portfólio prejudicou a tese de investimentos baseada em empresas de valor tradicional e de forte presença física (conhecidas pela sigla HALO – High Assets, Low Obsolescence), que vinha beneficiando os setores de energia, utilities e materiais básicos na B3.
No plano doméstico, o ambiente de negócios passou a registrar uma maior volatilidade em decorrência do aumento do risco político e fiscal. Conforme relatório do JPMorgan de meados de maio, o mercado reagiu fortemente a reportagens jornalísticas vinculando o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. Para estrategistas políticos e econômicos, o episódio começou a redesenhar as probabilidades eleitorais e os modelos preditivos para a corrida presidencial, sinalizando potenciais mudanças de candidaturas até o prazo legal de registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 15 de agosto. Diante de tantas incertezas externas e internas, o investidor estrangeiro optou pela cautela e pela reprecificação de ativos no curto prazo.









