A startup de gestão financeira Kamino anunciou um investimento estrutural de mais de R$ 40 milhões direcionado ao desenvolvimento de sua infraestrutura própria de inteligência artificial. O montante representa a maior parte dos R$ 54 milhões captados pela companhia em sua última rodada de investimentos, realizada em setembro do ano passado. De acordo com a liderança da empresa, o aporte em tecnologia será distribuído de forma estratégica em três verticais de negócios principais: aprimoramento do produto final, otimização da operação interna e aceleração no desenvolvimento de novos softwares.
Em entrevista exclusiva ao portal Startups, o CTO e co-fundador da Kamino, Rodrigo Perenha, destacou que o período recente serviu como um laboratório de testes e aprendizados práticos antes do ganho de escala. O executivo detalhou que a empresa amadureceu seus sistemas de automação para gerar valor direto aos diretores financeiros (CFOs) e que o foco agora se volta para a aceleração comercial. Para dar sustentabilidade ao projeto de inovação em longo prazo, a fintech já planeja a captação de uma rodada Série B no próximo ano, visando expandir as aplicações tecnológicas de IA.
O principal fruto dessa nova estratégia é o Agente Financeiro da Kamino, ferramenta corporativa apresentada ao mercado em evento recente. Diferente dos assistentes genéricos disponíveis no setor, o dispositivo opera nativamente sobre dados já estruturados e protegidos dentro da própria plataforma, como fluxos de caixa, extratos bancários, contas a pagar e recebimentos. Para viabilizar a tecnologia sem comprometer o sigilo corporativo, a startup desenvolveu uma camada de Model Context Protocol (MCP), que funciona como um intérprete seguro entre o agente inteligente e as informações sensíveis de cada cliente.
O roadmap do produto prevê que o agente, que atualmente atua de forma consultiva para responder a dúvidas estratégicas de analistas e diretores, migre gradualmente para a execução autônoma de tarefas operacionais. O planejamento estratégico da fintech estabelece que o sistema passe a classificar documentos, conciliar contas de forma automatizada e se integrar ao sistema de grandes bancos para a liquidação de pagamentos, mantendo a supervisão humana apenas em pontos críticos. O objetivo é atacar o gargalo das equipes financeiras, que chegam a gastar 70% do tempo em rotinas repetitivas de relatórios.
Os ganhos de produtividade prometidos pela nova camada tecnológica são expressivos. Projeções internas da Kamino apontam para uma redução de até 72% no tempo despendido em rotinas operacionais e analíticas tradicionais, o que devolveria cerca de 200 horas de trabalho por mês aos departamentos financeiros das empresas parceiras. Atualmente, a fintech atende a uma carteira de mais de 5 mil CNPJs e já movimentou uma cifra superior a R$ 25 bilhões em transações, tendo como público-alvo as empresas de médio porte do setor de serviços, historicamente dependentes de planilhas manuais.
Fundada em 2021 com um histórico de R$ 108 milhões captados, a Kamino descarta planos de internacionalização imediatos por entender que o mercado endereçável brasileiro ainda oferece ampla avenida de crescimento. No front interno, a IA já transforma o desenvolvimento de engenharia da própria startup: agentes de código assumiram tarefas de correção de bugs que antes demandavam dois desenvolvedores em tempo integral. De acordo com Perenha, a tecnologia deixou de ser o fator limitante para a velocidade de lançamento do produto, transferindo o protagonismo para as estratégias de distribuição e go-to-market.








