O envelhecimento acelerado da população brasileira pressiona políticas públicas e fomenta o debate sobre transformação demográfica, infraestrutura e rede de apoio social. Este é o resultado apresentado pelo Relatório Longevidade e Economia Brasileira, realizado em parceria entre o Itaú Viver Mais, associação sem fins lucrativos do Itaú Unibanco focada no público com mais de 50 anos, e a Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP). De acordo com o estudo, pessoas com 60 anos ou mais representam 15,7% da população nacional, e cerca de 83% dos idosos dependem da previdência pública como principal fonte de renda.
“Promover o debate sobre a longevidade no Brasil é parte central do nosso compromisso em sermos uma voz ativa na construção de um futuro mais justo e sustentável. Não se trata apenas de viver mais, mas de garantir que essa jornada aconteça com dignidade, segurança e inclusão”, afirma Luciana Nicola, diretora de Relações Institucionais e Sustentabilidade do Itaú Unibanco. “Por meio do Itaú Viver Mais, investimos em pesquisas de profundidade para gerar conhecimento de referência e apoiar a sociedade civil, a academia e a iniciativa privada a responderem de forma eficaz a essa transformação que o País vem vivenciando”, detalha a executiva.
“Os dados mostram que o envelhecimento da população brasileira já produz impactos estruturais sobre a economia, as cidades e as dinâmicas sociais do País. A pesquisa buscou integrar diferentes bases de dados e perspectivas analíticas para compreender esse processo de forma ampla, contribuindo para o desenvolvimento de políticas públicas e estratégias institucionais mais preparadas para os desafios da longevidade”, afirmam Eduardo de Rezende Francisco e Lauro Gonzalez, pesquisadores líderes do estudo na FGV EAESP, representando os centros de pesquisa FGVanalytics e FGVcemif.
Atualmente, o país conta com um contingente de 32 milhões de cidadãos com 60 anos ou mais, número que projeta dar um salto histórico para 66,5 milhões de idosos até o ano de 2050. Longe de representar um segmento economicamente inativo, a chamada “economia prateada” consolida-se como um pilar de sustentabilidade financeira no país, sendo responsável por responder por 25% de toda a renda dos lares brasileiros e assumindo o papel de principal mantenedor financeiro em 27% dos domicílios.
Apesar do forte protagonismo financeiro nas famílias, o sistema que dá sustentação a essa população apresenta sinais severos de estresse estrutural e desequilíbrio atuarial no longo prazo. Um relatório divulgado pela iniciativa Itaú Viver Mais revela que cerca de 83% dos idosos brasileiros dependem exclusivamente da previdência pública como sua principal fonte de rendimentos diários. O estudo acende um alerta ao demonstrar que o volume de beneficiários cresce em ritmo muito superior ao de novos contribuintes; entre os anos de 2015 e 2021, o número de trabalhadores ativos recolhendo para o Regime Geral avançou menos de 1%, enquanto a concessão de novas aposentadorias saltou mais de 17%.
Diante da insuficiência dos benefícios previdenciários e da necessidade de complementar a renda doméstica, a presença da terceira idade no mercado de trabalho formal registrou um aumento expressivo de 88% no intervalo entre 2012 e 2022. No entanto, os analistas responsáveis pelo levantamento apontam que esse indicador esconde uma realidade de forte precarização laboral no país. Os postos de trabalho estão concentrados majoritariamente na faixa etária que vai dos 60 aos 64 anos e em ocupações de baixa remuneração técnica, que pagam até um salário mínimo, evidenciando que a permanência na atividade ativa configura uma estratégia compulsória de sobrevivência financeira, e não uma escolha voluntária por bem-estar.
A vulnerabilidade econômica dessa parcela da população reflete-se de maneira direta e paradoxal na segurança nutricional e nos hábitos de consumo cotidiano. Mesmo diante da extrema relevância dos cuidados com a saúde nesta etapa da vida, aproximadamente 27,3% da população idosa do país convive com algum grau de insegurança alimentar, enfrentando restrições no acesso a refeições básicas. O relatório também compilou indicadores de longo prazo que apontam para um aumento de 20% no consumo de alimentos fora do lar entre os anos de 2009 e 2018, movimento que veio acompanhado por uma deterioração generalizada na qualidade nutricional da dieta.
No front da saúde pública, o desafio do acolhimento e do tratamento médico de longo prazo ganha contornos dramáticos devido à alta dependência estatal. Estima-se que cerca de 75% da população idosa brasileira dependa de forma exclusiva dos serviços prestados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para a realização de exames, consultas e internações. Os custos operacionais com assistência médica expandem-se de forma acentuada a partir dos 60 anos de idade, impulsionados pela alta incidência de doenças crônicas e comorbidades múltiplas, expondo que a rede hospitalar brasileira ainda carece de preparação adequada para lidar com demandas de cuidado contínuo.
Os dados do estudo também jogam luz sobre os marcadores sociais de gênero e raça, explicitando como as desigualdades históricas do país se manifestam e se intensificam na velhice. O fenômeno conhecido como “feminização da velhice” expõe as mulheres a uma maior vulnerabilidade social e financeira, reflexo de uma trajetória de vida marcada pelo acúmulo de tarefas de cuidado doméstico não remuneradas que prejudicaram a inserção no mercado formal. Da mesma forma, o componente racial apresenta distorções severas, com os dados demográficos reforçando de maneira contundente que a população negra atinge em proporção significativamente menor as faixas etárias mais avançadas da pirâmide.
Para assegurar que o envelhecimento populacional transcorra de forma digna e sustentável nas próximas décadas, o diagnóstico aponta para a necessidade urgente de uma agenda de ação integrada e coordenada entre o Estado, o mercado corporativo e a sociedade civil. Entre as principais recomendações estruturais elencadas no plano de metas estão o fortalecimento de políticas públicas intersetoriais integrando saúde, assistência e planejamento urbano, bem como o fomento à chamada “economia do cuidado”.









