A proposta de fusão entre a Paramount Skydance (PSKY) e a Warner Bros. Discovery (WBD), avaliada em US$ 110 bilhões, transformou-se no epicentro de um intenso debate sobre o futuro da indústria do entretenimento nos Estados Unidos. Durante um protesto realizado no sábado no Lumiere Music Hall, em Los Angeles, trabalhadores do setor, pequenos empresários e lideranças políticas manifestaram forte oposição ao negócio. O evento marcou a abertura da turnê “Main Street vs. The Merger” (Rua Principal vs. A Fusão), que percorrerá três cidades americanas sob a coordenação de grupos de defesa trabalhista e do Writers Guild of America (WGA).
No palanque, o comediante e roteirista Adam Conover classificou a atual onda de consolidação dos conglomerados de mídia como uma ameaça existencial à soberania cultural norte-americana. Conover, que teve seu programa “Adam Ruins Everything” cancelado na TruTV após a aquisição da Time Warner pela AT&T em 2018, utilizou sua experiência pessoal para ilustrar o impacto direto dos cortes de custos e demissões em massa que sucedem grandes fusões corporativas.
Apesar dos protestos, os órgãos reguladores antitruste federais dos EUA dão sinais de que caminham para aprovar o acordo. A sinalização positiva ocorre em meio a uma série de garantias apresentadas pela Paramount Skydance de que o ecossistema criativo não será prejudicado. O CEO David Ellison comprometeu-se publicamente a preservar o ritmo de produtividade dos estúdios, assegurando o lançamento conjunto de pelo menos 30 longa-metragens por ano.
Em nota oficial, um porta-voz da Paramount enfatizou que a união gerará incentivos econômicos robustos para expandir a oferta de conteúdo de alta qualidade: “Opor-se a este acordo significa opor-se a uma maior escolha do consumidor, a novas oportunidades para criadores e trabalhadores e a uma maior concorrência em todo o ecossistema criativo — o oposto do que a lei antitruste pretende alcançar.”
O receio dos profissionais dos bastidores encontra amparo em dados macroeconômicos que apontam para uma retração estrutural do emprego em Hollywood desde o pico atingido no final de 2022. Fatores como a queda nas receitas de publicidade da TV tradicional e a estagnação do crescimento das plataformas de streaming têm forçado as companhias a buscarem polos de filmagem mais baratos fora da Califórnia.
Entre 2019 e 2023, o estado da Califórnia perdeu 17.234 empregos no setor de entretenimento, segundo o Instituto Milken. A taxa de ocupação dos estúdios na região metropolitana de Los Angeles desabou para 62% no primeiro semestre de 2025, contra a lotação quase total registrada em 2016, conforme dados da Film LA. A Aliança Internacional de Funcionários de Palco Teatral (IATSE), que representa 170 mil técnicos e operários, reportou que seus membros trabalharam 36% menos horas em comparação com os níveis de 2022.
Empresários locais de pós-produção, como Matt Radecki, cofundador da Different by Design, alertam que a consolidação reduzirá drasticamente o número de compradores e distribuidores para produções independentes e documentários premiados, sufocando canais consolidados como a HBO e a CNN Films.
A resistência ao megajegócio ganhará contornos jurídicos nos próximos dias. Fontes informaram que um consórcio de estados norte-americanos, liderado por potências econômicas como Califórnia e Nova York, está finalizando uma ação judicial conjunta para tentar bloquear a fusão nos tribunais.
*Com informações da Reuters
