A Enter, startup brasileira de inteligência artificial voltada ao setor jurídico, alcançou o status de unicórnio após uma rodada de investimento de US$ 100 milhões que elevou seu valuation a US$ 1,2 bilhão. O aporte foi liderado pelo Founders Fund, fundo ligado ao investidor Peter Thiel, com participação de Sequoia Capital, Ribbit Capital, Kaszek e outros investidores já presentes no capital da empresa, como OneVC e Atlantico. Fundada em 2023 em São Paulo, a startup chegou à marca bilionária em menos de dois anos de operação.
A empresa foi criada quando Mateus Costa-Ribeiro, então com 23 anos, deixou uma carreira como advogado nos Estados Unidos e um MBA em Stanford para empreender ao lado de Michael Mac-Vicar, ex-CTO da Wildlife, e Henrique Vaz, formado por Harvard. O foco da startup é automatizar o contencioso empresarial — usando inteligência artificial para analisar processos, organizar provas e sugerir caminhos jurídicos, com revisão humana ao final. A tecnologia combina modelos de linguagem de grandes provedores, como OpenAI, Anthropic e Google, com bases de dados proprietárias.
A tração operacional justifica o interesse dos investidores. A Enter afirma processar mais de 300 mil casos por ano e cerca de 20 bilhões de tokens por dia. Em 2025, a empresa atingiu receita recorrente anualizada (ARR) de R$ 50 milhões — número que, segundo a companhia, cresceu 13 vezes no ano seguinte. Notavelmente, a startup já gerava caixa ainda em seu primeiro ano de operação, o que é incomum entre empresas em estágio inicial de crescimento acelerado.
O modelo de negócio combina pagamento antecipado pelo uso da tecnologia com uma parcela variável atrelada ao desempenho: cerca de 30% da remuneração depende do sucesso nas ações judiciais. A carteira atual inclui aproximadamente 40 grandes empresas, entre elas Latam Airlines, Azul, Santander, Bradesco, Nubank, C6 Bank, Vivo, SulAmérica e Airbnb. A meta é dobrar essa base de clientes até o fim do ano.
Os recursos da nova rodada serão direcionados principalmente para contratações e infraestrutura. A startup planeja adicionar 80 engenheiros ao time, chegando a cerca de 200 funcionários — mais de 85% em funções técnicas. A empresa também firmou acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para construir uma base histórica de processos judiciais no país, o que deve ampliar significativamente a capacidade preditiva de seus modelos. Uma das frentes de expansão prioritárias é a área trabalhista, onde a Enter já opera com cinco clientes.
Segundo o CEO Mateus Costa-Ribeiro, a composição do novo captable foi pensada como uma aliança estratégica com os principais players globais de inteligência artificial. Os fundos envolvidos têm em seus portfólios empresas como SpaceX, OpenAI, Anthropic, Facebook, Apple e Google. “A decisão de levantar a rodada agora foi facilitada pelo bom momento de desempenho e pela estrutura com baixa diluição”, afirmou o executivo, destacando a ambição de consolidar a liderança da empresa no mercado latino-americano antes de avançar para os Estados Unidos.
A Enter se junta a um seleto grupo de legaltechs bilionárias no mundo, como a norte-americana Harvey, avaliada em US$ 11 bilhões, e a sueca Legora, com valuation de US$ 5,6 bilhões. No longo prazo, a estratégia inclui expansão para o mercado norte-americano e a construção de uma empresa global de IA jurídica — com um IPO considerado um caminho possível no horizonte. Para os fundadores, o status de unicórnio é um marco relevante, mas não define o objetivo da empresa: a prioridade, dizem, segue sendo crescimento e execução em escala.








