O avanço do Pix poderia ter reduzido drasticamente a relevância do Vakinha. Com transferências instantâneas, gratuitas e disponíveis para qualquer pessoa, ficou mais fácil divulgar uma chave e receber doações sem depender de uma plataforma intermediária.
A empresa gaúcha, porém, adaptou o modelo e transformou a confiança construída ao longo de 17 anos em seu principal diferencial. Atualmente, o Vakinha reúne mais de 15 milhões de usuários, recebe cerca de 2 mil novas campanhas por dia e processa mais de 500 mil doações por mês.
A estratégia para os próximos anos será reforçar o posicionamento como plataforma de impacto social. A companhia quer ser lembrada não apenas em tragédias e emergências de grande repercussão, mas também nas milhares de arrecadações menores voltadas a tratamentos, projetos comunitários, proteção animal e geração de renda.
“O nosso negócio é levantar dinheiro para a pessoa que está precisando, para várias causas”, afirma Luiz Felipe Gheller, fundador e CEO do Vakinha.
Pix reduziu campanhas, mas não interrompeu crescimento
Fundado em 2009, antes da popularização do termo crowdfunding no Brasil, o Vakinha chegou a registrar cerca de 4 mil campanhas criadas diariamente. Após o lançamento do Pix, esse volume caiu pela metade.
A ameaça era direta. Enquanto a plataforma cobrava taxas e precisava de alguns dias para liberar os recursos, uma chave Pix permitia receber o dinheiro imediatamente e sem intermediação.
Mesmo com a redução no número de campanhas, o volume financeiro movimentado pelo Vakinha se manteve e continuou crescendo. Segundo Gheller, a presença de uma empresa responsável pela arrecadação aumenta a confiança dos doadores e pode ajudar uma campanha a alcançar mais pessoas.
“Eu posso fazer na minha chave Pix, mas vou arrecadar mais se fizer no Vakinha, porque as pessoas confiam que existe um intermediário”, explica.
A empresa também acelerou mudanças internas. O prazo para liberação dos recursos caiu de 14 para cinco dias, enquanto ferramentas de inteligência artificial passaram a apoiar a análise de risco das campanhas e das contribuições.
Segurança se tornou parte central da operação
A credibilidade conquistada pelo Vakinha também atraiu criminosos. Uma das principais ameaças atuais está nos sites falsos que copiam a identidade visual da plataforma para enganar doadores.
A empresa afirma derrubar centenas de páginas clonadas por semana. Além do monitoramento externo, a operação antifraude inclui canais de denúncia, análise das campanhas e novas verificações no momento em que o responsável solicita o resgate do dinheiro.
A inteligência artificial ajuda a identificar movimentações fora do padrão, informações inconsistentes e sinais de fraude. A decisão final, porém, também depende da avaliação humana, principalmente em casos com maior risco.
O desafio é equilibrar segurança e velocidade. Verificações mais rígidas reduzem a chance de golpes, mas também podem atrasar o repasse para pessoas que precisam dos valores com urgência.
Enchentes levaram campanha a R$ 80 milhões
A maior demonstração da capacidade operacional do Vakinha ocorreu durante as enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024. Uma campanha liderada pela plataforma começou com meta de R$ 5 milhões e terminou com aproximadamente R$ 80 milhões arrecadados.
Mais de 1,2 milhão de pessoas fizeram doações. Diante do volume inédito de acessos e transações, a empresa precisou ampliar a infraestrutura e organizar rapidamente os repasses.
A equipe começou a transferir os recursos em um sábado, enquanto atualizava uma planilha pública com os valores enviados. A transparência sobre o destino do dinheiro ajudou a fortalecer a reputação da plataforma.
A operação foi repetida em menor escala durante as enchentes de Minas Gerais, quando as arrecadações superaram R$ 1 milhão.
Apesar da visibilidade gerada pelas grandes mobilizações, Gheller afirma que a sustentação do negócio está nas campanhas menores. São arrecadações de R$ 2,5 mil, R$ 3 mil ou R$ 15 mil que surgem todos os dias e atendem necessidades específicas.
O desafio é ampliar o alcance dessas iniciativas sem depender de tragédias ou momentos de forte comoção pública.
Anúncios e eventos ajudam campanhas menores
Para apoiar usuários que não possuem uma grande rede de contatos, o Vakinha criou o Vakinha Anúncios. A ferramenta permite contratar campanhas publicitárias para Facebook e Instagram dentro da própria plataforma.
A integração com a Meta inclui peças produzidas pelo Vakinha e segmentações testadas pela empresa. A proposta é facilitar a divulgação para pessoas que não dominam ferramentas de publicidade digital.
Outra frente está nos eventos presenciais voltados à proteção animal. Segundo a companhia, organizações que arrecadavam entre R$ 5 mil e R$ 10 mil por mês passaram a levantar de R$ 30 mil a R$ 40 mil com ações apoiadas pela plataforma.








