Os preços do petróleo avançavam mais de 3% nesta terça-feira, após as negociações de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã mostrarem sinais de colapso, reacendendo preocupações com a segurança do fornecimento global. O Brent subia US$ 3,47, ou 3,3%, para US$ 107,68 o barril, enquanto o WTI americano avançava US$ 3,54, ou 3,6%, para US$ 101,61 — ambos acumulando ganhos próximos a 3% já na sessão anterior.
O pano de fundo é a ruptura das conversas de paz no Oriente Médio. O presidente Donald Trump afirmou na segunda-feira que o cessar-fogo estava por um fio, citando divergências profundas sobre as condições do acordo, que incluem a cessação das hostilidades em todas as frentes, o fim do bloqueio naval americano, a retomada das exportações de petróleo iraniano e o pagamento de indenizações por danos de guerra. “Após ambas as partes rejeitarem as propostas uma da outra, as tensões entre o Irã e os EUA estão aumentando mais uma vez”, avaliou o analista do Commerzbank Carsten Fritsch.
O ponto mais sensível do conflito para os mercados de energia é o Estreito de Ormuz. O Irã reafirmou sua soberania sobre o estreito, por onde transita cerca de um quinto de todo o petróleo e gás natural liquefeito comercializados no mundo. A ameaça de interrupção no fluxo pelo canal já produziu efeitos concretos: produtores reduziram exportações, e uma pesquisa da Reuters revelou que a produção de petróleo da OPEP em abril caiu ao nível mais baixo em mais de duas décadas.
O alerta mais grave veio do CEO da Saudi Aramco, Amin Nasser, que advertiu que as interrupções nas exportações pelo estreito poderiam atrasar o retorno à estabilidade do mercado de petróleo até 2027, com perdas estimadas em cerca de 100 milhões de barris por semana — um volume que, se confirmado, representaria um choque de oferta de proporções históricas.
Do lado da demanda, o cenário também traz complicações. Refinarias independentes chinesas estão reduzindo a produção de combustíveis diante da queda nas margens de lucro, reflexo de demanda interna fraca e excesso de produto no mercado. A guerra comercial entre Washington e Pequim agrava o quadro: as tarifas impostas durante o conflito interromperam a maior parte das importações chinesas de petróleo e GNL dos EUA, fluxo que somava US$ 8,4 bilhões em 2024.
Nos Estados Unidos, os estoques de petróleo bruto devem ter caído cerca de 1,7 milhão de barris na semana passada, segundo estimativa de analistas ouvidos pela Reuters — dado que, se confirmado pelos dados oficiais, reforçará a percepção de mercado apertado e poderá sustentar os preços em patamares elevados nas próximas sessões.
O quadro atual combina três forças de pressão simultâneas sobre o mercado: risco geopolítico no principal corredor de escoamento do petróleo mundial, queda na produção da OPEP e redução dos estoques americanos. Enquanto a diplomacia entre Washington e Teerã não apresentar avanços concretos, os preços devem seguir voláteis — e a marca de US$ 110 por barril passa a ser um horizonte cada vez mais discutido entre os analistas do setor.









