A SpaceX concluiu nesta sexta-feira um voo de teste amplamente bem-sucedido de sua nova Starship V3, lançando satélites simulados, executando manobras de estresse extremo e realizando um pouso controlado no Oceano Índico. O resultado marca um avanço significativo para o programa após meses de atrasos e reforça a confiança dos investidores às vésperas do IPO da empresa, previsto para o próximo mês e que pode se tornar o maior da história dos mercados americanos.
O lançamento — 12º voo de teste da Starship desde 2023 e primeiro da versão V3 — ocorreu por volta das 17h30 (horário do Centro dos EUA) nas instalações da SpaceX em Starbase, Texas. O veículo, composto pela espaçonave Starship acoplada ao foguete propulsor Super Heavy, decolou com seus 33 motores Raptor em pleno funcionamento. Minutos depois, os dois estágios se separaram com sucesso, a espaçonave liberou sua carga útil de satélites simulados e completou uma reentrada atmosférica com chamas antes de amerissar no Oceano Índico cerca de 65 minutos após o lançamento — sob aplausos estrondosos dos funcionários da SpaceX. “Parabéns à equipe da SpaceX por um lançamento e pouso épicos da primeira Starship V3”, publicou Elon Musk em sua plataforma X.
O teste apresentou algumas anomalias, mas atingiu a maioria dos objetivos estabelecidos. Um dos seis motores da Starship falhou no início do voo, o que levou os controladores a cancelar a reinicialização planejada do motor no espaço. O foguete Super Heavy também não completou a queima de retorno prevista após a separação. Ainda assim, a espaçonave realizou com sucesso manobras deliberadamente projetadas para submetê-la ao máximo estresse estrutural e completou intacta sua descida final controlada. Durante a fase de cruzeiro, liberou um a um os 20 satélites Starlink simulados e dois satélites reais que escanearam o escudo térmico da nave e transmitiram dados para a equipe em solo. “O teste parece ter atingido vários objetivos importantes e fornecerá à SpaceX dados operacionais e de engenharia significativos para o futuro”, avaliou Kathleen Curlee, analista do Centro de Segurança e Tecnologias Emergentes da Universidade de Georgetown.
O voo ganha relevância especial pelo contexto financeiro. A SpaceX deve protocolar seu IPO em cerca de três semanas, em uma oferta que pode valorizar a empresa em até US$ 1,75 trilhão e transformá-la imediatamente em uma das companhias de capital aberto mais valiosas do mundo. A Starship está no centro dessa tese de investimento: a empresa investiu mais de US$ 15 bilhões no desenvolvimento do veículo como uma espaçonave totalmente reutilizável, projetada para reduzir drasticamente os custos de lançamento, escalar as operações da constelação Starlink e viabilizar centros de dados orbitais — negócios que dependem diretamente da capacidade de lançamento frequente e de baixo custo que só a Starship pode oferecer em escala.
A versão V3 traz melhorias substanciais em relação às gerações anteriores. Os motores Raptor do Super Heavy foram reformulados para gerar maior empuxo com um design mais leve. O sistema de propulsão do estágio superior foi aprimorado para missões de longa duração, com mecanismos que permitem acoplamento entre naves, reabastecimento no espaço e maior capacidade de manobra — funcionalidades essenciais para missões além da órbita terrestre baixa. O lançamento também foi o primeiro a partir de uma plataforma especialmente projetada para o novo foguete.
Esses avanços técnicos estão diretamente ligados ao contrato de mais de US$ 3 bilhões firmado com a NASA em 2021 no âmbito do programa Artemis, que prevê o uso da Starship para levar astronautas de volta à superfície da Lua até o final desta década — a primeira vez desde 1972. A missão lunar da SpaceX, planejada para 2028, exigirá um procedimento inédito de reabastecimento em órbita, com múltiplas naves-tanque Starship. O programa coloca os Estados Unidos em uma nova corrida espacial com a China, que almeja seu próprio pouso lunar tripulado em 2030. Para Musk e para os investidores que apostarão no IPO, o sucesso de sexta-feira é mais um argumento de que a SpaceX está mais próxima de transformar suas ambições em realidade comercial.









